segunda-feira, 25 de novembro de 2013

PATRIMÓNIO INDUSTRIAL, MEMÓRIA DO TRABALHO PRODUTIVO





Uma ideia estimulante para a nossa reflexão é a que Françoise Choay propõe, ao denunciar o que classifica como a fetichização do património, expressa em duas formas contraditórias de o olhar: de um lado a perspectiva passadista e nostálgica, resistente à articulação integradora entre o antigo e o novo; do outro a visão progressista que reduz o património preservado a objecto de museu. (cf. CHOAY, Françoise, 2009).

A contradição radica na própria ambiguidade do conceito de Património que se alargou exponencialmente a todas as áreas da actividade humana. (cf. POULOT, Dominique, 2001). Daí a necessidade de reafirmar a abordagem histórico-sociológica que articule, simultaneamente, os valores do tempo longo (dimensão maior da História) e do tempo curto (vivências quotidianas), de modo a que o conceito de Património reassuma a dimensão de portador de consciência histórica e de memória das comunidades humanas.

IGREJA DOS CLÉRIGOS, NO PORTO

Quando penso no Barroco surge-me sempre a imagem da Igreja dos Clérigos, no Porto, com a sua torre.

É um verdadeiro monumento: ícone da cidade, é também a manifestação brilhante da maturidade artística de Nicolau Nasoni. Veja-se: a localização num sítio dominante, a originalíssima planta do templo, a dificílima arte de articular toda a panóplia de motivos decorativos na opulenta fachada, a capacidade de integrar a torre no edifício, dando-lhe simultaneamente um estatuto autónomo








O interior responde da mesma forma ao desafio da concepção: equilíbrio e elegância num espaço de fulgores decorativos.





O verdadeiro e genuíno espírito do barroco encarna naquela construção magnífica!





Ir ao Porto é entrar nos Clérigos e, eventualmente, subir lá acima, à varanda circular da torre, para sentir a respiração da cidade.

(Fotos da Internet)

ARTE TOTAL PARA UMA VISÃO GLOBAL DA VIDA






A expressão de Oliveira Martins que se refere ao reinado de D. João V como “entusiasmo
desvairado dessa ópera ao divino”, prefigura, avant la lettre, a perspectiva de análise que hoje
designamos por “arte total”. De facto, que outra manifestação artística tem um carácter tão global
como a ópera? Ela é um poderoso estimulante sensorial, através dos sons – canto e música -, e
das imagens – cenografia e salas de espectáculo. Porém, a metáfora do historiador oitocentista
tem um alcance mais vasto pois ela aplica-se à envolvente social que rodeou a corte do rei
magnânimo: verdadeira sociedade do espectáculo em que, desde o cerimonial das procissões aos
solenes Te Deum, da “montanha de pedra” de Mafra aos banquetes de inúmeros serviços, da
Capela de S. João Baptista de S. Roque às igrejas paroquiais de todo o país, tudo concorria para
produzir o efeito de manifestação do poder régio através do luxo e do espavento.

O BARROCO NÃO CABE NA CRONOLOGIA



Se é verdade que o conceito atravessa a História da Arte – a um período artístico de predomínio  de despojamento, de simplicidade de formas e de processos, sucede sempre outro de complexidade e decorativismo – então não é possível fixar balizas cronológicas em que caiba o conceito de barroco, ele é um fenómeno histórico-cultural recorrente. Será a isto que G. Deleuze se refere na abordagem filosófica ao conceito de barroco a partir da noção de “dobra” ou “prega”. (cf. “Barroco”, Dicionário de estética, dir. Gianni Carchia e Paolo D’Angelo, Ed. 70, Lisboa, 2003).
Contudo, a cultura ocidental considera que o conceito de barroco é operativamente necessário para o estudo da evolução da arquitectura e das artes decorativas a ela associadas – revestimentos, escultura, pintura - e é nessa perspectiva que se procuram pontos de referência cronológica. Em Portugal aponta-se o final do séc. XVII até à penúltima década do séc. XVIII.  Mas é uma operação difícil, sempre polémica, dado que não há simultaneidade de manifestações do barroco nem quanto aos lugares nem quanto aos tempos. Se algures surgiu mais cedo, noutro lado prolongou-se por mais tempo. Se aqui coexistiu com o maneirismo, ali  conviveu com o neoclassicismo. Seja qual for a baliza marcada, sempre se encontrarão excepções. Veja-se o caso da chamada “Encomenda prodigiosa” – a capela de S. João Baptista na Igreja de S. Roque, em que coexistem, em simbiose perfeita, a tendência decorativa barroca com o desenho neoclássico da estrutura.
De facto, o barroco parece sobrar sempre para fora de todas as linhas de demarcação…

EM TORNO DO BARROCO






BARROCO: O CONCEITO

Para o homem contemporâneo, é uma palavra carregada de ambiguidade, que pode ter valor de substantivo ou de adjectivo. O adjectivo com o significado de excessivo, opulento, ligado à ideia de quantidade, de sobreposição. O substantivo apontando para um estilo em que a forma se sobrepõe à função. Visualmente associa-se o conceito de barroco à variedade de formas, ao capricho artístico.
Estas acepções padecem de falta de rigor: ou porque não têm em conta os campos de aplicação (está-se a falar de arquitectura? De artes decorativas? De literatura? etc…) ou o tempo histórico em que se manifestam. Ignoram, igualmente, que não há um conceito de “puro barroco” e que na chamada época barroca sempre conviveram realidades diversas que se autocontaminavam e, assim, se enriqueciam.

CARTA AO MEU PAI QUE NÃO QUER QUE EU SEJA ARQUEÓLOGO


Olá pai

Separámo-nos ontem, amuados. Hoje, nem pensar falar contigo pois sei que te vais exaltar outra vez. Ainda tenho nos ouvidos a tua fúria: “Não contes comigo para te pagar um curso que te vai levar directamente para o desemprego! Não contes comigo!!”.
Acredito que queres o meu bem, tens sido um pai muito fixe, mas acho que ainda não aceitaste a ideia de que eu tenho 18 anos. Já tenho direito a votar, ok?
Então pensei em escrever-te uma carta. Se calhar vais estranhar. Acho que nunca te escrevi. Só bilhetes de recados. Espero que consigas ler com calma.
Porque é que eu quero ser arqueólogo? Ontem fizeste-me essa pergunta, a gozar, e disseste que eu me queria armar em Indiana Jones. Estás enganado, pai. Vou tentar explicar-te a minha ideia, pode ser que te consiga fazer mudar de opinião.

HISTÓRIA DA ARQUEOLOGIA PRÉ-HISTÓRICA PORTUGUESA


FIGURAS E ESPAÇOS MARCANTES
DA HISTÓRIA DA ARQUEOLOGIA PRÉ-HISTÓRICA PORTUGUESA
Breve síntese


Na impossibilidade de resumir exaustivamente a já longa e rica História da Arqueologia Portuguesa, optei por organizar os meus apontamentos em três capítulos: Figuras, Espaços Arqueológicos e Espaços Institucionais.

FIGURAS (Ressalta uma característica geral: são da área da Geologia)

Carlos Ribeiro: juntamente com Pereira da Costa e Nery Delgado, é uma das figuras marcantes da Segunda Comissão Geológica (1857). Principais trabalhos de prospecção e escavação: 1863, Concheiros de Muge; 1870: tese do Homem Terciário Português, a partir de estratos geológicos da região da Ota (Alenquer), num dos mais fecundos problemas científicos da nossa arqueologia, retomado por Nery Delgado e resolvido no séc. XX por Henri Breuil e Georges Zbyszewski; 1878: povoado pré-histórico de Leceia (Oeiras); catalisador da realização em Lisboa do IX Congresso Internacional de Arq. e Antrop. Pré-Hist, em 1880.
Nery Delgado: Gruta da Casa da Moura (Óbidos,1865) e Gruta da Furninha (Peniche, 1880): é pioneiro nas práticas científicas do uso da quadrícula no espaço escavado, definição de níveis estratigráficos das jazidas e sistematização tipológica dos materiais.
Pereira da Costa: primeiros estudos do Neolítico em Portugal em “Descrição de alguns dolmens ou antas em Portugal” (1868).
Estácio da Veiga: o primeiro arqueólogo profissional em Portugal, deixa uma obra monumental em 4 vols: “Antiguidades Monumentais do Algarve”.
J. Leite de Vasconcelos: 1º Director do Museu Ethnológico Português (1893); promotor de recolha nacional de vestígios do homem antigo em Portugal; fundador da importante revista “O Archeólogo Portuguez”; autor do livro seminal “Religiões da Lusitânia”.
Mendes Correia: dinamizador da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia; novas investigações nos Concheiros de Muge; lança a hipótese da vinda de populações do Norte de África para a P. Ibérica, que estariam na origem do Homo Faber Taganus.
Manuel Heleno: sucessor de L. de Vasconcelos no Museu Ethnológico; estudos do megalitismo português, de que provou a originalidade cultural; estabelecimento da sequência contínua do Paleolítico Superior; revista Ethnos; intenso labor arqueológico.
Abel Viana: colabora intensamente com Octávio da Veiga Ferreira; esforçado e auto-didacta, evidencia-se em múltiplos trabalhos de que se destacam os realizados em Ourique (necrópole de Atalaia e Castro da Srª da Cola).
G. Zbyszewski, (com H. Breuil em 1941 e 42): protagoniza o ressurgimento da Comissão Geológica de Portugal. Dá importante impulso ao estudo do Paleolítico e sua relação com a Geologia do Quaternário. Estudo das Praias Quaternárias da Estremadura portuguesa e terraços fluviais do médio e baixo Tejo.
O. Veiga Ferreira: um dos que mais marcou o séc. XX da arqueologia portuguesa. Notável labor em muitas áreas e épocas, destacam-se: estudos do Paleolítico Inferior e Médio; necrópoles megalíticas das Caldas de Monchique; os tholos do Baixo Alentejo, que explora, permitem-lhe sustentar internacionalmente a teoria da progressão de sul para norte dos prospectores e metalurgistas do cobre e estabelecer a autonomia conceptual da Idade do Cobre; prossegue a exploração dos Concheiros de Muge (de 1952 a 66). Primeiro doutorado num tema da Pré-História com o já clássico “La Culture du Vase Campaniforme au Portugal (Sorbonne, 1965).
Casal alemão Leisner (Vera e Georg): levantamentos geológicos e notáveis estudos do megalitismo português.
Fernando Almeida e Farinha dos Santos: docentes contemporâneos na década de 60 na Fac. Letras de Lisboa, privilegiaram o contacto directo com os sítios e os materiais arqueológicos. O primeiro, sucessor de M. Heleno no Museu de Belém, evidenciou o período visigótico; o segundo, regendo a disciplina inovadora da Pré-História, suscitou seguidores, além da notável investigação da Gruta do Escoural.

VALORES DURÁVEIS VS VALORES DE MERCADO



 Continuava eu de volta da questão dos “juízo de valor” ou “avaliação” (cf. WEBER, Max. “O sentido da «neutralidade axiológica» nas ciências sociológicas e económicas”, in: WEBER, Max, Sobre a teoria das ciências sociais, editorial Presença, Lisboa, 1974), conceitos necessários para a abordagem do trabalho do historiador – ou, no caso do ensaio referido, do professor de ciências sociais – quando me abeirei do texto de Vitor Serrão, “Mundo da arte globalizado e dimensões éticas”.
É um texto que aponta sem ambiguidades para a afirmação de valores duráveis, defendendo que a História da Arte pode e deve ser uma barreira contra a usura consumista que faz da obra de arte (OA) uma mercadoria transacionável como outra qualquer. Socorre-se de doutrinas que já vêm do Renascimento e que apontam para a Arte como instância de afirmação humanista e de promoção de valores transcendentes. Aplicada ao nosso tempo, esta perspectiva atribui ao Historiador-Crítico de Arte a capacidade para “analisar os porquês das estratégias comunicacionais que perduram com as obras de arte”, em linhas de investigação que devem escorar-se em princípios teóricos e metodológicos estruturados, numa aproximação aberta aos significados das OA, “numa postura ética irrepreensível”. (No texto são várias as insistências na ética comportamental de todos os agentes envolvidos nas questões da arte).
Há neste discurso um olhar crítico sobre o consumismo que também chegou ao mundo das artes, o qual deve ser contrariado pelos que estão envolvidos na História-Crítica da arte, no sentido da afirmação dos valores da cidadania. Invocando Walter Benjamin que propõe “novos modos de analisar a arte enquanto processo transformador” – a partir de conceitos como “aura” e “imagem dialética da OA” - , V. Serrão mostra como podemos entrever as múltiplas capacidades de análise que a História de Arte permite, ao mesmo tempo que afirma valores perduráveis que se sobrepõem às mutáveis circunstâncias do tempo histórico de curta duração.

O CIENTISTA SOCIAL E OS JUÍZOS DE VALOR



 Já depois de ter escrito o apontamento anterior, reli um texto que tinha aqui por casa, de Max Weber ( Três tipos de poder e outros escritos, Lisboa, ed. Tribuna da História, 2005, p.177) e encontrei uma formulação que me fez pensar. Textualmente:
"Quem pretender fazer história da arte, inclusive no sentido puramente empírico, deve possuir a capacidade de 'compreender ' (sic) a produção artística; mas tal habilidade é inconcebível sem a capacidade de juízo estético, isto é, sem a capacidade (sic) de apreciação."
E no parágrafo seguinte deixa a interrogação:
"(...) em que sentido se pode falar de 'progresso' (sic) na história da arte, fora (sic) de toda a apreciação estética?"
De facto... se eu reflectir no caso, terei de rever a noção de neutralidade que seria desejável no historiador de arte. Continuo a pensar que ela é desejável, mas dentro de que limites? Porque, de facto, há limites: o historiador está dentro da História dos homens, sendo ele um homem e não um marciano. Tem uma formação académica - ou outra... - e uma formatação ideológica que será tanto mais de ter em conta quanto dela não tenha consciência.
A escolha do campo de observação para o seu estudo já parte de um juízo de valor: vou estudar isto e não aquilo, porque... Então, a garantia de seriedade científica do seu estudo deve radicar na clareza com que explica a escolha/problema, no enunciado das metodologias adoptadas e na referência ao seu ponto de vista. 

CIENTISTA DE LABORATÓRIO OU CIENTISTA SOCIAL?




 Estou a aprender a lidar com a obra de arte (OA) como fonte para a História da Arte em particular e para a História em geral. Nesta aprendizagem devo abandonar o meu lugar de espectador/fruidor e assumir o de observador qualificado, munindo-me de procedimentos metodológicos apropriados para desocultar na obra em apreço todas as informações possíveis que me permitam resolver o problema que me levou à sua observação. 
Não me parece que o meu trabalho deva ser o de especialista técnico: dissecar uma pintura em todos os seus aspectos de produção; examinar um edifício com os  instrumentos de um construtor civil ou de um arquitecto; estudar uma escultura de madeira ou uma talha  com os olhos de um entalhador ou de um mestre escultor.
Como Historiador, ou zelador do Património, penso que devo procurar e utilizar todos os dados disponíveis que me ajudem a ler a OA em todos os seus pormenores, a começar pelos dados facultados por esses especialistas técnicos e constantes dos seus relatórios. 
Mas de mim, cientista social, pede-se muito mais: que saiba "ultrapassar o campo meramente formalista para abraçar outros caminhos de indagação" (cf. Metodologia do Trabalho Científico, Carla A. Gonçalves, UAb, 2012, p.82).
Esta especificidade do cientista social é que me permite um olhar crítico e racional sobre a OA, menos preocupado com  juízos de valor estético e mais centrado na compreensão das  potencialidades significativas da sua existência enquanto produto de uma época.

NÃO SEJAS CRENTE



Emblema 16 de Andrea Alciato. Ne credas. Edição de 1591, Leiden. Plantin.

Imagem na portada da Unidade Curricular METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTÍFICO. Desde o início que ela me interroga e avisa: "Ne credas". Aquela mão com um olho tem o mesmo efeito que o olho que via pintado na proa de alguns barcos na Nazaré, era eu miúdo. Meu pai advertia-me: "É o olho de Deus, ele vê tudo o que fazemos. Os pescadores querem dizer a Deus que olhe por eles quando andam no mar..." E eu ficava temeroso , como Adão que quis furtar-se ao olhar de Deus,depois do pecado...Uma breve incursão pela net, em busca de Andreia Alciato, deu-me a chave: "Ne credas", isto é, não caias na crendice, não te deixes convencer facilmente, interroga, investiga. Não sejas presa fácil dos dogmas aparentes.Parece-me um conselho oportuno e pode ser adoptado como lema de conduta nesta actividade de estudante. Ver AQUI. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

INTERVENÇÃO NA ÁREA DA "ARQUEOLOGIA E SOCIEDADE"


AS CABECEIRAS DE SEPULTURA DO TURCIFAL

Há uns meses atrás, numa visita ao Turcifal, deparámos casualmente com um conjunto de 5 estelas funerárias incrustadas num muro do adro da Igreja.





O Turcifal é uma das mais antigas povoações do concelho de Torres Vedras, cujo topónimo é citado em documentos dos séc. XII e XIII ( TORRES VEDRAS, A VILA E O TERMO NOS FINAIS DA IDADE MÉDIA, Ana Maria Rodrigues, 1995). Possui uma imponente Igreja, classificada como Monumento de Interesse Público, reconstrução setecentista do templo medieval. Em seu redor, como era usual, situava-se o cemitério. Naturalmente, as estelas que ali encontrámos eram dessa necrópole.  
Tirámos algumas fotos e publicámos uma nota no blogue da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras (1) em que considerávamos polémica a colocação daquelas cabeceiras de sepultura: «Estas estelas funerárias são um testemunho genuíno que vem do fundo dos séculos e nos traz a memória de quem ali viveu e foi sepultado. Ao contrário das peças de Museu, estas cabeceiras estavam in situ, e era aí que deveriam ser mantidas. Como memória e testemunho do passado.
O adro, que foi objecto de obras profundas terminadas em 2007 - como se lê na placa comemorativa - só teria a ganhar se nele tivesse sido preservado um lugar, talvez junto de uma das paredes da Igreja, em que estas cabeceiras fossem alinhadas, com um pequeno dístico a lembrar aos homens de hoje a existência dos antepassados. O que nos parece inaceitável é fazer delas objectos de decoração do muro do adro.»
Essa nota originou dois comentários que considerámos estimulantes para a abordagem da questão. Enquanto o primeiro expressava alguma surpresa pelo caso, o segundo punha questões pertinentes. Citamos:
 «No meu entender, não se trata de atentado nenhum. Trata-se, isso sim, de uma colocação correcta, tanto quanto foi possível realizar, ao tempo, das pedras que indicam as campas instaladas. Outro assunto é saber da sua verdadeira dimensão geográfica e da "importância relativa" dos sepultados nestas áreas. No decorrer dos séculos, é provável que tenham sido deslocadas do sítio exacto das sepulturas, é verdade, mas a sua função e proximidade continuam a testemunhar o culto medievo dos mortos. Além de que, no limite, esse facto, o da eventual deslocação, já fazer parte da História. Cordialmente. (Autor identificado)»
Esta ocorrência levou-nos a procurar mais informação, quer sobre os materiais arqueológicos quer sobre as obras do adro do Turcifal. Falámos com o Presidente da Junta, o Pároco, o autor do comentário (pessoa culta, com curso superior, como viemos a saber) e a Técnica Superior do “Museu Municipal Leonel Trindade de Torres Vedras”. Anotámos:
1.       A Junta de Freguesia actual promoveu as obras de 2007, com o apoio da Câmara Municipal, e nelas foram encontradas outas cabeceiras de sepultura, posteriormente depositadas no Museu Municipal. Porém, aquelas que estão no muro são provenientes de obras anteriores, realizadas em 1984. Quem ali as colocou terá pensado que essa seria a melhor forma de as preservar, mantendo-as visíveis. O Presidente da Junta, Filipe Santos, manifestou total abertura para debater o assunto e encontrar uma solução que venha a ser considerada mais correcta. Mas observou que qualquer alteração ao que está feito deve passar por uma informação detalhada à população pois esta mostra-se sempre ciosa das suas antiguidades.
2.       O Pároco, P. Paulo Antunes, deu-nos conhecimento de outras estelas, que se encontram numa arrecadação da Igreja. Também se declarou favorável a uma solução mais elaborada da questão.
3.       O autor do comentário (Sr. A.M.) mostrou-se receptivo à discussão sobre o assunto, que considerou pertinente. Aceitou a ideia de que a colocação no muro pode não ser a melhor mas há que a respeitar e uma possível alteração terá de ser bem pensada.
4.       A Técnica Superior do Museu, Drª Isabel de Luna, informou-nos que em 2005 participou no VIII Congresso Internacional de Estelas Funerárias, no qual apresentou, em coautoria com Guilherme Cardoso, uma comunicação intitulada “Novas cabeceiras de sepultura do concelho de Torres Vedras”. Nessa Comunicação, - publicada em O Arqueólogo Português, 3 (suplemento), 2006 (2) – faz-se referência à colecção existente no Museu Municipal de Torres Vedras, «(…)uma das maiores e melhores colecções de cabeceiras de sepultura do país, constituída por 101 exemplares que, juntamente com 11 estelas dispersas pelo concelho, foram inventariadas por José Beleza Moreira, em 1982.» (3) e são inventariadas mais 45 estelas funerárias, 23 das quais encontradas no Turcifal. Verifica-se, assim que esta aldeia é, de longe, aquela em que foram encontradas mais peças. Curiosamente, no inventário de Beleza Moreira não havia referências ao Turcifal.
5.       De referir ainda que nesse Congresso houve mais uma comunicação relativa a Torres Vedras em que foram descritas mais 16 estelas funerárias provenientes do Castelo daquela cidade.(4)

Destas notas julgamos ser lícito tirar algumas conclusões. A saber:
a)       Torres Vedras reúne um espólio de 162 estelas funerárias da ápoca medieval e início da época moderna. Da leitura dos textos referidos retira-se uma verificação: a maioria deste espólio está guardado, quer no Museu quer noutros locais  como sejam Igrejas e entidades particulares. Só uma pequena amostra se encontra exposta e dessa, só uma parte ínfima está nos locais de origem.
b)       Estas peças não pode ser integralmente expostas, quer devido ao seu precário estado de conservação quer ao reduzido interesse público, dado que são de tipologias repetidas. Mas não deixa de ser intrigante que o destino de tantas dezenas destes testemunhos arqueológicos seja o armazém do Museu ou a arrecadação de uma igreja.
c)        Impõe-se, por isso, a reconsideração sobre o destino a dar-lhes, sobretudo tendo em conta que actualmente há um maior interesse pelos vestígios históricos por parte das populações. Isso mesmo verificámos nas visitas que fizemos ao Turcifal.
d)       A exposição de uma parte destas peças deve ser acompanhada de uma acção permanente de informação e sensibilização para o tempo histórico, o que permitirá uma maior consciencialização das comunidades locais quanto ao seu passado e ao reforço dos seus laços de identidade
e)       Sendo o Turcifal a povoação concelhia que possui maior número de cabeceiras de sepultura, propomos que se estude uma forma de expor ao público as mais significativas e que essa exposição, montada na própria vila - num anexo da Igreja ou no adro -  seja acompanhada de informação fixa e volante para que possa desempenhar o papel pedagógico que lhe cabe. Para concretizar essa exposição propomos que se crie uma Comissão na qual estarão representadas as seguintes entidades: Junta de Freguesia, Paróquia, Associação do Património de Torres Vedras, Museu Municipal e um membro da população residente, convidado pela Junta de Freguesia e pelo Pároco.
A atividade de uma Associação de Defesa e Divulgação do Património faz-se muitas vezes através de acontecimentos aparentemente fortuitos como este que aqui relatámos. A partir deles é possível encontrar formas práticas de abordar a relação entre a arqueologia e a sociedade, uma questão sempre pertinente para quem trabalha nesta área pois nela se cruzam a consciência histórica, o gosto pela preservação do Património e a participação das populações na gestão dos seus bens culturais.
Torres Vedras, 18 de Novembro de 2013
Joaquim Moedas Duarte

NOTAS
(2)      LUNA, Isabel; CARDOSO, Guilherme – “Novas cabeceiras de sepultura medievais do concelho de Torres Vedras”, Actas do VIII Congresso Internacional de Estelas Funerárias, O Arqueólogo Português, Suplemento, 3, Lisboa, p. 423-477.
(3)      MOREIRA, José Beleza, Catálogo das cabeceiras de sepultura do concelho de Torres Vedras, Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, Torres Vedras, 1982, 67 p.
(4)      CUNHA, Carlos e AMARO, Clementino – “Castelo de Torres Vedras – cabeceiras de sepultura medievais (1984-2004), Actas do VIII Congresso Internacional de Estelas Funerárias, O Arqueólogo Português, Suplemento, 3, Lisboa, p. 253-265.








domingo, 3 de novembro de 2013

CIÊNCIA E PAIXÃO OU A PAIXÃO DA CIÊNCIA



Peço desculpa por voltar à questão dos valores (axiologia) em ciência. Tenho-me defrontado com ela desde o início das leituras nesta UC. Marcado pela perspectiva marxista na minha formação inicial, órfão dela desde a sua falência na prática política, interrogo o vazio das opções positivistas que postulam a neutralidade axiológica da ciência, como já tive ocasião de referir num post anterior. 
Depois de alguma pesquisa e de leituras complementares, encontrei uma formulação que veio ao encontro das minhas perplexidades. Permitam-me que cite:
«Contra o ideal empirista da ciência neutra que separa estritamente os factos e os valores, a evolução da filosofia da ciência ao longo do século XX mostra que a racionalidade tecnocientífica não é somente uma racionalidade teórica, mas também prática e submetida, portanto, aos diversos valores que governam as acções dos cientistas. Uma filosofia da actividade científica terá de confrontar-se de novo com o debate sobre a ciência e os valores que fora estritamente posto de lado pelos filósofos positivistas da ciência.» (in: ECHEVERRÍA, Javier, Introdução à metodologia da ciência, a filosofia da ciência no século XX, Coimbra, Livraria Almedina, 2003, p.314-315). Depois, o autor desenvolve esta ideia em dez pontos, à maneira de teses, em que insiste no princípio da «pluralidade axiológica da ciência» (idem, p. 316).
Sinto-me, pois, mais confortável na abordagem da Ciência e da posição do cientista perante o seu objecto de estudo. E aceito, agora, sem reservas,

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

ARTHUR DANTO




Morreu o homem que abriu caminhos de        
entendimento para a arte contemporânea. Ver no PÚBLICO:

http://www.publico.pt/cultura/noticia/morreu-arthur-danto-o-inventor-do-mundo-da-arte-








O ALPINISTA E DANTO

Quando um jornalista perguntou ao alpinista João Garcia porque é que escalava montanhas, ele respondeu: “porque elas estão lá.”
Soube que Arthur Danto morreu hoje. Quem era este homem de quem se fala e que eu desconhecia?
Numa pesquisa rápida, dei-me com um pequeno ensaio de Danto: ”Marcel Duchamp e o fim do gosto: uma defesa da arte contemporânea”: http://www.cap.eca.usp.br/ars12/arthur_danto.pdf)
Como tantas vezes acontece aos que deixam obras marcantes, Danto continuará vivo no poder esclarecedor dos seus estudos. Rapidamente o descobri na resposta que propõe para um problema que há muito me incomoda, interroga e intriga: a arte contemporânea.
Neste texto, Danto reflecte sobre as posições de Jean Clair, director do Museu Picasso em Paris, que se tornou acérrimo adversário da arte contemporânea. Danto pega na velha questão dos conceitos de “bom gosto e mau gosto” e, numa apaixonante digressão pela História de Arte, relembra os itinerários de outro conceito desafiador, o de “abjecção”, para mostrar como ele tem de ser entendido no contexto histórico. Porque não há pensamento/acção fora da História. Veja-se a imagem de Cristo cruxificado, semi-nu e repleto de chagas, pendurado numa armação de madeira: seria chocantemente abjecta se deslocada do contexto da Contra –Reforma em que foi proposta aos crentes.
Entendi que é este o ponto de partida de Danto para nos ensinar a entender a arte contemporânea e a perplexidade que ela tantas vezes nos causa. Ao historiador-crítico de arte (designação tão usada por Vitor Serrão) não compete condenar ou absolver mas sim desvendar, entender os significados múltiplos que a arte dos nossos dias nos propõe.

À semelhança do alpinista, compete-nos ver, olhar e tentar entender a obra de arte simplesmente porque ela está lá.

J. Moedas Duarte

CIÊNCIAS SOCIAIS, IDEOLOGIA E METAFÍSICA



É estimulante mergulhar de novo nestas questões da Ciência / Ciências Naturais e Ciências Sociais. Tanto mais quanto tenho consciência de que, para fazer um trabalho de investigação na área da História ou do Património –as que mais me interessam – necessito de um roteiro teórico-prático que me guie no processo de construção do conhecimento. E esse é o MÉTODO.

Parece-me crucial reconhecer a importância do método na abordagem científica, entendendo-se como método o conjunto de regras e de técnicas escolhidos para abordar qualquer objecto de

HÁ UMA “VERDADE” OU “PARCELAS DE VERDADE”?



HÁ UMA “VERDADE” OU “PARCELAS DE VERDADE”?

Reflectindo sobre a possibilidade de chegar à verdade a partir das teorizações do Círculo de Viena (neopositivismo) e das contribuições/correcções de Karl Popper, anoto:
Nas Ciências Sociais (CS) como nas Naturais (CN) parte-se sempre de um problema para o qual se propõem soluções que devem ser alvos de crítica, (tentativa/erro/nova tentativa/novo erro…

K. Popper diz textualmente: “A tensão entre saber e não-saber conduz ao problema e à tentativa de solução. Porém, jamais é superada” (cf. K.Popper, Em busca de um mundo melhor, ed. Fragmentos, Lisboa, 1989, cap. A lógica das Ciências Sociais, pp. 71 e sgts). Portanto:

CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

ISTO ESTÁ TUDO LIGADO

Quando me iniciei nos estudos universitários, na Faculdade de Letras, tive grandes discussões com antigos colegas de Liceu que tinham ido para o Técnico. Eles defendiam o primado das “ciências exactas”, contrapondo-as às minhas “humanidades”. Acantonados atrás da Matemática e da Física, desvalorizavam o que consideravam “as especulações subjectivas da Filosofia e as descrições fantasistas da História “.
Valeu-me um mestre, o prof. Borges de Macedo, que na disciplina de Teoria da História, logo no 1º ano da Licenciatura, nos conduziu às grandes questões das Ciências Sociais.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

DIA MUNDIAL DOS CORREIOS




Hoje é o dia mundial dos Correios. Um serviço de alto valor civilizacional.
Veja-se AQUI uma referência muito apropriada.

(Foto: blogue PORTUGAL ANTIGO)


Poderoso meio de coesão nacional, a privatização que se anuncia é uma ameaça que pesa sobre esta empresa nacional lucrativa.
As edições de álbuns temáticos em que o selo se alia ao estudo e divulgação do nosso Património Cultural, constituem um valioso espólio documental que não pode ser posto em causa.



O Carteiro de Pablo Neruda, um dos filmes da minha vida!


quarta-feira, 10 de julho de 2013

MOTIVAÇÃO PESSOAL



Por que razão resolvi  candidatar-me à frequência do Curso de Mestrado em Estudos do Património da Universidade Aberta?

Tendo-me licenciado em História na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa,  fui professor efectivo de História no 2º Ciclo do Ensino Público entre 1971 e 2008, ano em que me aposentei. Sempre entendi que o meu papel social não se esgotava na sala de aulas e deveria estender-se à prática de uma cidadania activa. Na Escola exerci todos os cargos de gestão e coordenação; na cidade onde vivo fui autarca (dois mandatos na Assembleia Municipal); participei e continuo a participar como dirigente no associativismo cultural: Cine-Clube de Torres Vedras, Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras, Associação para a Universidade da Terceira Idade de Torres Vedras e Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras (ADDPCTV) – onde actualmente exerço o cargo de Presidente da Direcção. Além disso colaboro regularmente na imprensa regional com textos ligados às questões de carácter cultural.

A Associação do Património (ADDPCTV) tem sido, sobretudo desde que me aposentei, a casa onde mais gosto de estar e onde me sinto mais útil. É uma associação com 34 anos de existência, e em actividade ininterrupta, o que já vai sendo uma raridade nas colectividades do mesmo género. Com três outras colectividades torrienses constituiu, há dez anos, o FORUM DAS ASSOCIAÇÕES CULTURAIS DE TORRES VEDRAS, entidade que, com a parceria da Câmara Municipal e a partir de verbas do QREN, se lançou na construção de um edifício/sede no Centro Histórico da cidade, o qual vai ser inaugurado ainda este ano.

Trata-se, pois, de uma nova fase na vida da ADDPCTV, mais exigente, pela maior visibilidade e pelas expectativas da população. Ultrapassou a fase pioneira da denúncia da indiferença e desleixo quanto ao Património ou dos atentados urbanísticos. Dela se espera agora uma intervenção mais qualificada e a prestação de mais diversificados serviços, correspondendo, aliás, aos desafios da Lei de Bases do Património Cultural (Lei nº 107/2001).

Com efeito, - falo agora como candidato ao Mestrado na área dos Estudos do Património – considero essa lei um instrumento de grande valia para a abordagem das questões do Património e um ponto de referência essencial para a minha própria formação. O conteúdo do seu articulado é um manancial de conceitos e orientações que estou longe de dominar e me desafiam ao seu estudo e aprofundamento.

Foi na elaboração do Plano de Actividades para esta nova fase da vida da nossa Associação que me consciencializei da necessidade de adquirir e aprofundar  conhecimentos na área do Património Cultural. Tal como a ADDPCTV, também eu deverei aceder a uma nova fase, estudando, sistematizando, comparando, concluindo. E que isso se faça sob a orientação de professores qualificados, seguindo um plano de estudos e, se possível, elaborando um trabalho final que contribua para o enriquecimento da comunidade em que vivo.

Mais especificamente, tenho como objectivos da minha formação:

·           > Conhecer os conceitos teóricos básicos para a compreensão do Património Cultural na História da humanidade

·      > Estudar a legislação relativa ao Património em articulação com as convenções nacionais e internacionais sobre o mesmo

·      > Reconhecer e valorizar o Património como elemento gerador de identidades, heranças e espaços de memória

·      > Adquirir instrumentos de análise que permitam elaborar pareceres e fazer propostas bem fundamentadas nas questões de gestão, conservação e divulgação do Património Cultural

·           >   Aprofundar conhecimentos de História da Arte e Arqueologia

·     > Conhecer e utilizar métodos de recolha e tratamento de dados relativos à memória do Património Cultural material e imaterial

·           >   Conhecer e comparar estratégias, meios e processos de divulgação dos bens patrimoniais



Em resumo, pretendo aperfeiçoar a minha intervenção como agente mais competente de cidadania activa no âmbito da defesa, preservação e divulgação do Património Cultural e Natural da cidade, da região e do país em que vivo. E, cotejando a minha pretensão com a oferta de formação constante do plano de estudos do Mestrado em Estudos do Património da Universidade Aberta, decidi candidatar-me à sua frequência.