terça-feira, 7 de junho de 2016

EM TORNO DO CONCEITO DE LUGAR DE MEMÓRIA





Este texto propõe-se reflectir sobre um conceito que se vulgarizou e passou a andar associado à noção de património e de memória colectiva. Partimos de um caso concreto para tentarmos definir a origem e a fortuna da expressão criada por Pierre Nora na sua monumental obra “Les lieux de mémoire”.


Nas comemorações dos 200 anos da Guerra Peninsular, em 2010, numa visita guiada ao lugar da batalha da Roliça[1] (concelho do Bombarral), registámos este pequeno monumento situado no meio de pomares de pereiras e macieiras. Trata-se de um túmulo com os restos mortais do tenente-coronel Lake, comandante do regimento 29 do exército britânico que ali se bateu contra os franceses em 17 de Agosto de 1808.
Citamos um texto documental: «Noventa anos depois destes acontecimentos, o 29º regimento faz escala em Portugal, na viagem de regresso a Inglaterra depois da Guerra dos Bóeres na África do Sul. Fiel à tradição, o regimento visita a Roliça para homenagear os seus antepassados mortos. Fazem-se escavações. Pelos despojos encontrados, são reconhecidos os restos mortais do lendário coronel Lake que emocionadamente depositam no singelo túmulo que ali constroem.
No silêncio da paisagem este monumento, mais do que lembrar um nome, perpetua a memória de tantos soldados desconhecidos que aqui se bateram na Guerra Peninsular.»[2]

Na altura da visita, a expressão lugar de memória surgiu espontaneamente para designar este espaço tão intensamente evocativo. Não nos detivemos sobre o seu conteúdo mais profundo ou sequer sobre o facto de a expressão nos ter ocorrido de modo tão natural. Foi agora, no contexto da unidade curricular Memórias e Identidades, em leituras complementares, que nos interrogámos sobre a pertinência da designação. Ela entrou há muito no vocabulário corrente, podemos dizer com propriedade que já faz parte da nossa memória colectiva. De onde veio? Como se impôs?
Segundo Joel Candau[3] foi Frances A. Yates, na obra A arte da memória, publicada em 1975, quem pela primeira vez estudou sistematicamente a relação entre memória e lugar. Partiu da verificação de que a retórica antiga cultivava o domínio da memória como instrumento para os oradores que não dispunham dos meios que hoje temos e que, para isso, usavam a associação de um lugar a um conteúdo. A memorização do discurso apoiava-se na fixação prévia de um itinerário de lugares, de modo a garantir que a visualização mental permitisse ou facilitasse a colagem de cada parte do discurso, no que Yates chamou «sistema de lugares de memória».[4] Este processo baseava-se no conhecimento empírico de que a memória se apoia em espaços fixados pela nossa visão. Note-se que ainda hoje as reconstituições criminais são feitas nos lugares do crime como forma de induzir mais facilmente o reconhecimento de algo que se passou.
Pierre Nora retomou a expressão «lugar de memória» num contexto totalmente diferente. Assumindo-se como alguém da terceira geração dos Annales e ligado à chamada Nova História, centrou o seu trabalho em torno do estudo e análise da história contemporânea francesa. François Dosse, autor de uma biografia de P. Nora[5], descreve o percurso algo excêntrico deste académico. Sendo professor universitário nas décadas de 70 e 80, ganhou notoriedade como editor de obras históricas, movido por uma inesgotável curiosidade e abertura a todos os contributos dos seus pares. A sua capacidade para investigar em parceria com outros historiadores leva-o a colaborar com Jacques Le Goff, primeiro, e depois, com uma vasta equipa de mais de cem historiadores que coordenou entre meados dos anos 80 e 90. No âmbito desse trabalho são publicados «sete volumes, 135 artigos, mais de 5600 páginas»[6] sob o título genérico Les lieux de mémoire, um empreendimento gigantesco que alterou decisivamente o panorama da historiografia francesa, como refere Armelle Enders[7] e cuja amplitude «seria irracional tentar resumir em poucas linhas», como diz J. Candau. Citando A. Enders: «Esse empreendimento 'memorial', coordenado por Pierre Nora, tem por origem seu seminário sobre história do presente, na École des Hautes Études en Sciences Sociales, e durará mais de 10 anos, concluído em 1993 com a publicação do último tomo dos "Lugares da memória". Propondo o retorno ao questionamento sobre a nação mediante a análise dos 'lugares da memória' (material, simbólico, funcional), o primeiro tomo consagra-se à "República" (1 volume sobre o século XIX), o segundo (3 volumes) à "Nação" (a partir da Idade Média), e o terceiro (3 volumes) às "Franças" (les France).»
Importa reter que a feliz expressão “lugares de memória” em torno da qual se erigiu a obra, acabou por se vulgarizar e até banalizar, apropriada por uma opinião pública ávida de história mas pouco dada à leitura e à reflexão. Passou a funcionar como os modernos sound bites da comunicação social, facto a que não terá sido estranha a utilização do próprio Jack Lang, ministro da cultura em 1986, que nela se apoiou para defender o relançamento de políticas de defesa do Património. É o que o próprio Pierre Nora explica numa extensa e muito elucidativa entrevista dada a Ana Fonseca Brefe, em 1999[8]:
«Eu seria malvisto se reclamasse dessa difusão e só posso me alegrar de ver a noção servir a boas causas. Mas é preciso reconhecer que o sucesso, como acontece na maior parte das vezes, se faz ao preço de interpretações empobrecidas e mesmo em um contra-senso. Um lugar de memória, para mim, não poderia nunca ser reduzido a um objeto material, mas sim, ao contrário. A noção é feita para liberar a significação simbólica, memorial – portanto abstrata – dos objetos que podem ser materiais, mas na maior parte das vezes não o são. Na verdade, existem somente lugares de memória imateriais, senão seria suficiente que falássemos de memoriais.»
Tentemos aprofundar a questão de saber como se constituiu este conceito que, afinal, aponta para um conteúdo desmaterializado da memória. Na referida entrevista P. Nora explica longamente que não partiu de uma teorização prévia, mas sim da intuição de que era necessário um novo olhar sobre a história da França. O seu projecto centra-se na observação das profundas mudanças históricas desde Napoleão até aos nossos dias, com a aceleração da história/acontecimento e a contradição entre a sedimentação da memória colectiva – mítica, sagrada, emotiva - e a fixação de uma historiografia que a problematiza, dessacraliza e desmitifica. Diz Nora: «A história é reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é um fenómeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história uma representação do passado.»[9]
É neste conflito entre vivido e reflectido, entre emoção e razão, que se evidencia a importância da memória, lugar de fixação de lembranças e esquecimentos num tempo mais espesso e duradouro que, de alguma forma, representa uma resistência à aceleração da história, ritmada pelos media que transmitem ao homem contemporâneo «a sensação de hegemonia do efémero»[10].
O grande projecto de Nora que se vai centrar numa história da memória radica nas profundas mudanças verificadas na sociedade francesa a partir dos anos 70: fim do grande ciclo de crescimento económico pós-guerra e do predomínio da ruralidade, fim da ideia de França como grande potência mundial, «fim da ideia revolucionária como organizadora do sentido da história».[11] Nora detecta na sociedade francesa uma espécie de consciência de perda colectiva que leva à revalorização do passado nacional e induz como compensação o crescente culto do património. Este fenómeno leva-o à procura dos «objectos que fossem portadores dessa expressão do sentimento nacional»[12] e cita, como exemplos, o Panteão, os monumentos aos mortos, a bandeira nacional, o 14 de Julho, os museus, etc – memoriais em que se ancorava a consciência nacional e de que ele vai tentar descobrir o modo como se instituíram e consolidaram. Um vasto campo que se alargou à medida que o ia percorrendo e onde se cruzam temas como o das comemorações com seus ritos colectivos ou o da própria história da historiografia – esse grande território em que evoluem as noções cruciais de memória e história, numa conflitualidade surda que cabe ao historiador das sociedades contemporâneas compreender e explicar. Nora refere que se tratou de uma empresa de que nem tinha noção da dimensão quando a ela se abalançou mas que, com o tempo, foi ganhando novos contornos. O próprio conceito de que temos vindo a tratar é assim visto por ele:
«(…) se eu me precipitei sobre a expressão os lugares da memória, que me pareceu se impor desde o princípio para abranger objectos tão diferentes uns dos outros, essa noção em si mesma quando quisemos defini-la, cercá-la intelectualmente, tivemos muitos problemas para fazê-lo. Assim, eu levei muito tempo para elaborá-la, e ela, progressivamente, se transformou.»[13]
Isto é: o conceito de lugar de memória não é unívoco. Nem o próprio Nora lhe reconhece nitidez de contornos já que ele evoluiu ao longo dos anos em que a obra foi sendo publicada. Contudo, numa fase final destes estudos propôs uma definição que nos pode ajudar a entender a complexidade do conceito:
«Lugar de memória, então: toda unidade significativa, de ordem material ou ideal, que a vontade dos homens ou o trabalho do tempo converteu em elemento simbólico do património memorial de uma comunidade qualquer.»[14] (Pierre Nora – Les lieux de mémoire, Paris: Gallimard, 1997)
Margarida S. Neves[15] sistematiza a sua leitura de Nora referindo que os lugares de memória têm três componentes: material, funcional e simbólica. Explicitando o seu conteúdo diremos que a componente material é aquela em que os sentidos apreendem os sinais da memória colectiva – caso dos memoriais construídos nos lugares de batalhas, os arcos do triunfo, as placas comemorativas, as bandeiras, os hinos, etc; a funcional que se refere à memória como sinal de identidade, de demarcação ou, até, de afrontamento face a grupos antagónicos – os rituais comemorativos, por exemplo, associados ou não à componente material; e a terceira componente simbólica constituída pelos significados mais profundos que a memória colectiva atribui a determinados lugares.
Em qualquer caso, estes lugares são espaços materiais ou ideais onde coexistem a história e a memória, em conflito ou em complementaridade, e sempre em mutação de acordo com as épocas e os grupos que deles se apropriam ou que os impõem. Um caso paradigmático de um destes lugares de memória é o promontório de Sagres cujo processo de mitificação Maria Isabel João estudou[16], evidenciando o modo como se construiu uma narrativa que se foi incorporando na memória colectiva, em oposição a uma historiografia que se tem mostrado insuficiente para erradicar os traços mais marcantes dessa memória.
Em jeito de conclusão, cremos ter delineado em breve resumo a origem e o processo de afirmação do conceito de lugar de memória. Voltando ao túmulo de Lake nos campos da Roliça, talvez o olhemos agora com outro entendimento. É um lugar de memória porque contém em si um simbolismo que o transcende como simples registo fúnebre; e também porque nele convergiram uma vontade de celebrar, um desejo de evocar e um apelo a inscrever na eternidade da memória colectiva um acontecimento que a história regista como definitivamente passado.
J. Moedas Duarte
Trabalho elaborado no âmbito da disciplina 
"Memórias e identidades" do Mestrado em Estudos do Património, 2014 


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BIBLIOGRAFIA
CANDAU, JOEL - Antropologia da memória. Lisboa: Instituto Piaget, 2013.

WEBGRAFIA
Brefe, Ana Fonseca – Pierre Nora ou o historiador da memória. [Em linha] in:
História Social, Campinas, nº 6, 1999, pp.13-33.[Consult. 10 Maio 2014]. Disponível em: < http://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/rhs/article/view/363/314

Enders, Armelle – Les lieux de mémoire, dez anos depois [Em linha]in:Estudos
            históricos, vol.6, nº 11(1993), Centro de Pesquisa e Documentação de História
Contemporânea do Brasil  [Consult. 13 Maio 2014]. Disponível em:<
http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/issue/view/277 >. Em nota final indica o plano completo da obra.

Gonçalves, Janice - Pierre Nora e o tempo presente: entre a memória e o
património cultural. [Em linha] Historiae, Rio Grande, 3, 2012, pp. 27-46. [Consult. 13 Maio 2014] Disponível em: <

joão, Maria Isabel – Sagres, lugar mítico da memória. [Em linha] In
"Des(a)fiando discursos:       Homenagem a Maria Emília Ricardo Marques".
 Lisboa : Universidade Aberta, 2005, p.       409-422. [Consult. em 12 Maio
 2014]Disponível em:<             https://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/375

neves, Margarida Sousa  – Lugares de memória na PUC-Rio. [Em linha]
Pontifícia      Universidade Católica- Núcleo de memória, Rio de Janeiro. [Consult. 13 Maio 2014].      Disponível em:< http://nucleodememoria.vrac.puc-rio.br/site/lugaresmargarida.htm

Ribeiro, Renilson R. – Nos jardins do tempo: memória e história na perspectiva de
Pierre Nora [Emlinha] in: História e-história. [Consult. 11 Maio 2014]. Disponível em:<

Silva, Helenice Rodrigues da – Resenha do livro de François Dosse “Pierre
Nora – homo historicus” inserta na Revista Brasileira de História [Em linha], vol. 31, nº 61, São Paulo, 2011. [Conslt. 11 de Maio de 2014]. Disponível em:< http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882011000100020 >





[3] Joel Candau – Antropologia da memória. Lisboa: Instituto Piaget, 2013, pp. 60 e 188.
[4] Joel Candau, op. cit, p. 61.
[5] Apoiamo-nos na recensão de Helenice Rodrigues da Silva inserta na Revista Brasileira de História [Em linha], vol. 31, nº 61, São Paulo, 2011. [Conslt. 11 de Maio de 2014]. Disponível em:< http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882011000100020 >
[6] Joel Candau, op. cit, p.188.
[7] Armelle Enders - LES LIEUX DE MEMOIRE, DEZ ANOS DEPOIS.[Em linha]in:Estudos históricos, vol.6, nº 11(1993), Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil  [Consult. 13 Maio 2014]. Disponível em:< http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/issue/view/277 >. Em nota final indica o plano completo da obra.
[8] Ana Fonseca Brefe – Pierre Nora ou o historiador da memória. [Em linha] in: História Social, Campinas, nº 6, 1999, pp.13-33.[Consult. 10 Maio 2014]. Disponível em: <
[9] Cf: Renilson R. Ribeiro – Nos jardins do tempo: memória e história na perspectiva de Pierre Nora [Em linha] in: História e-história. [Consult. 11 Maio 2014]. Disponível em:<
[10] Cf: Renilson R. Ribeiro, idem, p.2
[11] Cf: Ana Fonseca Brefe – Pierre Nora ou o historiador da memória…, p.23.
[12] Idem, p. 24.
[13] Cf: Ana Fonseca Brefe – Pierre Nora ou o historiador da memória…, pp. 25-26.
[14] Citado por Janice Gonçalves in: Pierre Nora e o tempo presente: entre a memória e o património cultural. [ Em linha] Historiae, Rio Grande, 3, 2012, pp. 27-46. [Consult. 13 Maio 2014] Disponível em: < http://www.seer.furg.br/hist/article/view/3260/1937 >
[15] Margarida Sousa Neves – Lugares de memória na PUC-Rio. [Em linha] Pontifícia Universidade Católica- Núcleo de memória, Rio de Janeiro. [Consult. 13 Maio 2014]. Disponível em:< http://nucleodememoria.vrac.puc-rio.br/site/lugaresmargarida.htm
[16] Maria Isabel João – Sagres, lugar mítico da memória. [Em linha] In "Des(a)fiando discursos: Homenagem a Maria Emília Ricardo Marques". Lisboa : Universidade Aberta, 2005, p. 409-422. [Consult. em 12 Maio 2014]Disponível em:< https://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/375




terça-feira, 1 de março de 2016

BOA NOTÍCIA



Como vai o Património mundial, hoje?
A UNESCO dá resposta através de uma revista on-line de acesso livre. Pode ser lida em Francês ou em Inglês.
Trancrevo o texto de apresentação:

«Le patrimoine mondial en Europe aujourd'hui, une publication de l'UNESCO sortie le 18 février, rassemble l’expérience des milliers de personnes qui sont directement impliquées dans la gestion des biens du patrimoine mondial en Europe. Elle attire particulièrement l'attention sur les pratiques et tendances du moment, tout en présentant une vision claire pour les priorités de demain. Basé sur une quantité considérable de données obtenues par le biais de l'exercice de soumission des rapports périodiques, qui vient de se conclure en Europe, cet ouvrage présente des analyses et des études de cas qui soulignent l'expérience des milliers de personnes investies au quotidien dans la gestion et la conservation du patrimoine mondial en Europe – une région qui représente à elle seule près de la moitié de la Liste du patrimoine mondial.
Cet ouvrage présente clairement les défis de la conservation et de la gestion des biens du patrimoine mondial, mais également les nombreux exemples de bonnes pratiques issues du travail quotidien des autorités nationales, des gestionnaires de sites, des experts et des communautés locales.

Ce faisant, cette publication met en lumière les réalités actuelles du patrimoine mondial en Europe et propose des recommandations pour le futur, qui doivent inspirer des approches novatrices de notre patrimoine millénaire au XXIe siècle.

Des copies papier sont disponibles dès maintenant à la Librairie en ligne de l'UNESCO, et le pdf de cet ouvrage est disponible gratuitement.»



sábado, 26 de setembro de 2015

MOSTRA EXPOSITIVA SOBRE A CASA HIPÓLITO




MEMÓRIAS DA CASA HIPÓLITO – Mostra expositiva integrada nas Jornadas Europeias do Património 2015.


A CASA HIPÓLITO marcou todo o século XX de Torres Vedras. Teve origem na pequena oficina de latoaria de António Hipólito e ao longo do século cresceu, passou por uma fase de esplendor, entrou em decadência e extinguiu-se em 1999. Milhares de braços lá trabalharam, tornando próspera a empresa que, pouco a pouco, se firmou no mercado nacional e, a partir da Segunda Guerra Mundial, saíu para o mercado externo com um significativo volume de exportações. Especializou-se em equipamentos de adega e maquinaria ligeira para a lavoura vitivinícola – o grande sector produtivo do concelho torriense – e em material de queima como fogareiros a petróleo e, mais tarde, candeeiros portáteis “Petromax” e aparelhos de gás. Esta MOSTRA EXPOSITIVA dá a ver um conjunto de objectos, fotografias e documentos que recordam o que foi aquela unidade fabril, - e que fazem parte do Fundo Casa Hipólito que, por iniciativa da Câmara Municipal de Torres Vedras, se encontra à guarda do Museu Municipal Leonel Trindade. 















CASA HIPÓLITO - A GALINHA QUE PÕE OVOS DE OURO - MEMÓRIAS DE UMA POLÉMICA







O tema central deste colóquio, integrado nas Jornadas Europeias do Património 2015, é o das memórias da Casa Hipólito. O que trazemos hoje ao conhecimento público é a memória de uma polémica no jornal BADALADAS, na década de 60 do século passado.



Como sabemos, a CASA HIPÓLITO marcou o século XX de Torres Vedras. Teve origem na pequena oficina de latoaria de António Hipólito em 1902 e ao longo do século cresceu, passou por uma fase de esplendor, entrou em decadência e extinguiu-se em 1999. Milhares de braços lá trabalharam…Alguns deles estão hoje aqui.
Está em marcha o processo que levará à narração da História desta empresa, à recolha  de memórias de quem lá trabalhou e ao levantamento e fixação de elementos do Património Industrial de que ela é exemplo maior no concelho de Torres Vedras.
Que fontes podem ser usadas para atingir estes objectivos?
Resumidamente, são estas:

1.                    Fundo da Casa Hipólito, que resulta da iniciativa meritória da Câmara Municipal de Torres
Vedras que recolheu uma parte dos salvados e a guarda neste Museu, onde está a ser inventariada;
2.           Informações dispersas por Arquivos diversos (estatísticas, relatórios, registos, actas, etc);
3.           Testemunhos orais a recolher em entrevistas ou depoimentos escritos;
4.           Imprensa local: notícias, reportagens, textos de opinião e peças publicitárias…

Vamos fixar-nos neste último núcleo, o da imprensa local.

É hoje consensual entre os historiadores o reconhecimento da importância e relevância da imprensa como fonte de estudo da História Local. Em Torres Vedras ela existe desde 1885 . Entre essa data e 1935 surgiram 21 títulos, entre semanários, quinzenários, trimensais e mensais, com tempos de vida muito variáveis, de acordo com as circunstâncias. 1935 é uma data de referência, relacionada com a afirmação do Estado Novo, de cariz totalitário, e corresponde ao ano a partir do qual rareou o aparecimento de novos títulos. A partir daí até 1974 apenas se contam 4 novos jornais, de periodicidade variável. Em 1948 surgiu o jornal BADALADAS, uma folha paroquial com saída mensal, mais tarde quinzenal e, a partir de 1960, semanal, o qual viria a tornar-se o órgão da imprensa local de referência e que ainda hoje se publica, com uma tiragem de cerca de 12 000 exemplares. Após 1974, ano da revolução do 25 de Abril, surgiram três novos semanários, com existência mais ou menos longa, - mas sempre de alguns anos, ou mais de uma década. – e ainda várias revistas ou jornais centrados na área cultural.

A imprensa local é um espaço público por excelência. Nele se cruzam notícias, opiniões e curiosidades que exprimem a ambiência cultural da comunidade que a produz. A característica essencial é o facto de os autores se considerarem originários “da terra”, por nascimento ou opção de residência, o que lhes dá, no seu entender, legitimidade para emitirem opinião ou transmitirem notícias. Não raro encontramos no que escrevem a evocação dessa qualidade, aliada à intenção de “defenderem os legítimos interesses das populações”.

  É claro que a utilização das peças jornalísticas como fonte histórica requer cuidados e reservas óbvios. Todos nos lembramos da caricatura do homem que dizia, de jornal na mão: “É verdade o que estou a dizer, vem escrito aqui no jornal…”
No entanto, e reportando-nos à História da Casa Hipólito, há muitos factos que se teriam perdido totalmente se não tivessem sido registados nas páginas dos nossos jornais.
O exemplo mais flagrante é o da própria data do início da empresa de António Hipólito que, a partir de certa altura – por razões publicitárias - passou a ser referida como tendo sido fundada no ano de 1900. O que não corresponde à realidade, como se prova pelo anúncio publicado pelo próprio António Hipólito no semanário FOLHA DE TORRES VEDRAS de 17 de Agosto de 1902 – repetido em jornais posteriores:
«NOVA OFICINA DE LATOEIRO DE ANTÓNIO HYPÓLITO / 43 – Rua Serpa Pinto - 43 // Participa ao público que tendo saído da antiga oficina Joaquim Franco, se estabeleceu por sua conta. Encarrega-se de qualquer obra respeitante à sua arte, concertos de bombas, canalizações, construção por sistema apereiçoado de gazómetros de acetilene, etc, etc. Tudo por preços muito limitados.»

Trago para esta sessão um elemento significativo para o conhecimento de um período importante da Casa Hipólito, na década de 60 do século passado: um conjunto de artigos de opinião publicado entre 26 de Junho de 1965 e 8 de Janeiro de 1966.
Naquela época a Casa Hipólito enfrentava sérios problemas com a falta de instalações suficientes para a contínua expansão da sua actividade.
Em meados da década anterior – 1953/54 – havia sido construído o grande edifício junto à Igreja de Santiago, - a chamada Fábrica A - com quatro pisos, mas logo se verificou que era insuficiente, o que levou à construção de Pavilhões na área da Várzea e armazéns no Patim – tudo ali perto mas em instalações descontínuas. As autorizações da Câmara eram concedidas a título precário “visto o Plano de Urbanização, superiormente aprovado, prever em prazo mais ou menos longo, a transferência para a Zona própria, das indústrias existentes na Zona habitacional.”(Acta da Câmara em 1954)
  A ideia de se fazer uma nova fábrica na chamada Várzea de Arenes já estava em marcha em 1960, quando a empresa informa a Câmara Municipal que aceita “aterro sem lixo e em qualquer quantidade” no terreno a ela destinado. A construção ali de novos  pavilhões está prestes a iniciar-se. Porém, a Câmara Municipal, a braços com falta de recursos financeiros, considera que não pode arcar sozinha com a construção dos acessos à zona industrial de Arenes. Além do pedido ao Estado, pede a comparticipação da Casa Hipólito em 200 contos, sem a qual não dará “início aos trabalhos de terraplanagem e pavimentação a betuminoso do acesso em causa” (Actas da Câmara M. em 1965 e 1966). A empresa, porém, não concorda com isso e faz constar que está disposta a migrar para outro concelho, para um terreno que já terá adquirido, à entrada da Malveira, no vizinho município de Mafra. Inicia-se um processo de braço de ferro que está na origem da polémica surgida no Badaladas, a que atrás fizemos referência.

Em boa verdade, a questão já fora levantada em 7 de Dezembro de 1963 nas páginas do Badaladas, num artigo assinado pelo Dr. Moura Guedes e que se intitulava: “O problema da Casa Hipólito”. No meio de considerações genéricas sobre a legitimidade dos direitos e deveres em confronto, da parte da Casa Hipólito e da Câmara Municipal, o articulista apontava o cerne do problema:
“Cremos que foi infeliz a aquisição de terreno para o Bairro Industrial, atento o facto de ser de aluvião, o que encarece as construções, e de estar rodeado de pessoas que certamente procuram aproveitar-se da oportunidade para valorizarem emasiadamente as sua courelas.”
A isto acrescem os custos de urbanização do local. O autor entende assim como natural que a empresa pense numa “sucursal noutra região onde o terreno fosse mais favorável e o custo da obra muito inferior.” Termina apelando para que as forças em presença encontrem “uma solução que não seja prejudicial e desagradável para o concelho.”




A polémica vai estalar um ano e meio depois.
Em 26 de Junho de 1965, surge na primeira página do Badaladas um artigo com um título bombástico: TORRIENSES! SALVEM A “GALINHA QUE PÕE OVOS DE OURO”.
Era seu autor João da Costa Miranda, torriense do Varatojo, emigrado há 40 anos na Argentina, onde se tornou um industrial de mérito, que viera passar uma temporada a Portugal.  
Usando uma linguagem emotiva, chama a atenção para o que considera uma tragédia que está prestes a acontecer. Numa visita às novas instalações de Arenes, ouvira de António Hipólito Júnior, gerente da fábrica, queixas amargas contra a Câmara Municipal que dificultava a resolução de problemas da empresa. A tragédia era que a Casa Hipólito já adquirira 30 hectares num concelho vizinho e projectava mudar-se para lá. Em tom melodramático, lembrando os grandes benefícios proporcionados por uma grande empresa como a Hipólito, interroga: “Teve de vir um torriense de tão longe para ver a gravidade desta situação?” E clama, já no final: “Não deixem escapar das mãos uma indústria tão próspera! (…)Tenham um só ponto de mira: a grandeza de Torres Vedras – Salvem “a galinha que põe ovos de ouro.”

Naturalmente este artigo teve resposta imediata da Câmara Municipal na semana seguinte, em 3 de Julho, em que emitiu um COMUNICADO. Em tom conciliatório, elogia o bairrismo do ilustre emigrante mas lamenta que, depois das queixas que ouviu ao gerente da Hipólito, não se tenha informado junto da Câmara e dos Serviços Municipalizados acerca da pertinência das mesmas. Se o tivesse feito, saberia que a Casa Hipólito pedira tarifas de energia eléctrica mais baixas para seu uso exclusivo e que os Serviços Municipalizados submeteram esse pedido à aprovação superior mas que tais tarifas fossem para todos os industriais. E que, a ser aceite tal pedido, o Município perderia o modesto lucro anual, com prejuízo para a generalidade da população, nomeadamente a da zona rural que espera pela electrificação pública. Lembra depois os vários pedidos já feitos pela Casa Hipólito e que foram aceites. Mas recorda outros que não o puderam ser porque implicariam um tratamento de privilégio, inadmissível para uma empresa que tem muitos milhares de contos de lucro.
 
  Na semana seguinte, em 10 de Julho, João da Costa Miranda responde com um pequeno texto agradecendo a gentileza da resposta camarária mas invocando que apenas pretendera “lançar um grito de alarme”. Não ouvira as duas partes em litígio porque entendia  não ter o direito nem a autoridade moral para fazer de árbitro.

  Uma semana depois, em resposta ao Comunicado da Câmara de 3 de Julho, surge em “Cartas ao Director" um extenso texto no qual João Alexandre Moreira, antigo responsável pelos Serviços Municipalizados, contesta as opções da Câmara em relação às tarifas eléctricas cobradas à Casa Hipólito. E recorre a dados estatísticos para provar a sua opinião.

  Em 21 de Agosto é a vez de o Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados contestar o teor do texto de João Alexandre Moreira. Evoca a complexidade do problema dos tarifários da electricidade, mostra outros dados estatísticos e prova que o novo tarifário é mais rentável para o Município.

  Sendo Verão, a assunto hibernou. Teremos de esperar pelo jornal de 25 de Dezembro de 1965 para lermos um novo e muito extenso texto do tal emigrante, João da Costa Miranda. Em destaque na primeira página e com recurso a pontos de exclamação, titula: “Na iminência de uma enorme e irreparável perda! Torrienses! Intentem salvar a «galinha que põe ovos de ouro».
Lamenta que se tenha transformado em letra morta o seu grito de alerta há seis meses atrás. E entra numa análise detalhada dos vários aspectos do problema para propor a criação de uma Comissão idónea que estude o problema e investigue, sem demoras burocráticas “se tudo isto é falso alarme ou se o concelho de Torres Vedras está realmente prestes a perder um dos seus fortes pilares.”

Uma semana depois, em 1 de Janeiro de 1966, assinada por Moura Guedes, surge a reacção a este texto, intitulada “Resposta a um apelo”. O autor recorda que o problema central de toda esta questão é o dos acessos viários à nova fábrica de Arenes os quais implicam a compra ou a expropriação de terrenos de vários proprietários. E aponta: “O Sr. João Miranda não faz a mais pequena ideia do trabalho que isso representa”. Lembra que, reconhecendo o valor e importância da Casa Hipólito, o Município deve olhar para a totalidade do território e da população concelhios. E diz claramente que “até hoje, nenhuma outra empresa de Torres Vedras exigiu e obteve da Câmara Municipal qualquer esforço ou sacrifício que, de longe, se parecesse com aqueles que tem feito pela Casa Hipólito.»

João da Costa Miranda estava prestes a partir para a Argentina mas ainda escreveu um terceiro e último artigo, publicado em 8 de Janeiro de 1966: “Mais um apelo – Torrienses!”. Ao tom dramático dos artigos anteriores junta o sentimento de amargura por ver que os seus apelos não suscitaram respostas capazes mas apenas meias tintas, paninhos quentes, ironias jocosas, observações descabidas. Nada mais lhe resta senão dar por finda a sua missão “nesta lamentável e espinhosa controvérsia”,(…) “agradecer as atenções recebidas e desejar de todo o coração que a luz se faça nas vossas mentes…”
Termina em acorde crescendo, citando o que a mãe do último rei mouro de Granada disse ao filho, ao vê-lo chorar pela perda irreparável do seu reino: «Chora agora como criança por aquilo que não soubeste defender como homem».

À distância de 50 anos, temos dificuldade em avaliar a pertinência e oportunidade desta polémica. Sabemos, no entanto, que ela teve larga repercussão no meio torriense, como não podia deixar de ser numa urbe de reduzida dimensão, apertada nas malhas do que é hoje o seu Centro Histórico.
Sabemos, também, que a empresa não se deslocalizou. Ao vermos hoje aquele espaço aberto da Várzea de Arenes, bem urbanizado e com múltiplos pavilhões de comércio e pequenas indústrias , já não conseguimos imaginá-lo como ele era no início dos anos 60:  boas terras de amanho agrícola, onde medravam hortas e pomares, mas alagadiço e sujeito a cheias frequentes. Um longo caminho se andou e a Casa Hipólito construiu ali imponentes conjuntos de naves fabris, escritórios e um refeitório de belo recorte modernista.
Mal sabia João da Costa Miranda, o interveniente emigrante de 1965,  que o seu apelo viria a ter dolorosa actualidade  trinta e poucos anos depois, quando a falência decretou a morte da empresa a que ele chamava a “galinha que põe ovos de ouro"

Joaquim Moedas Duarte
19 de Setembro de 2015

Este texto foi lido no Colóquio integrado nas Jornadas Europeias do Património 2015, no Museu Municipal Leonel Trindade de Torres Vedras. Nesse dia foi aberta ao público uma Mostra Expositiva sobre a Casa Hipólito.