Da leitura dos capítulos selecionados das Viagens na minha
terra, destaco as páginas dedicadas ao Convento de S. Francisco (cap. XLI e
XLII), como símbolo do vandalismo contra o património edificado.
Almeida Garrett que, tal como Herculano, foi um lutador da
liberdade e, de armas na mão, contribuiu para a instauração do regime liberal,
aproveita o relato do seu passeio a Santarém para zurzir impiedosamente a
ignorância e o desleixo dos barões do novo regime que, entre outras coisas,
desprezam e maltratam os monumentos da Santarém medieval. O Convento de S.
Francisco, “um dos mais antigos e mais históricos edifícios do reino”, foi
“consertado pelas Obras Públicas para servir de quartel de soldados”. E Garrett
amaldiçoa as mãos que profanaram a velha urbe e que desonraram Portugal porque
“destruíram os padrões da sua história”. A pungente descrição do túmulo do rei
D. Fernando, profanado pela bruteza dos soldados que nele buscaram riquezas, é
um dos pontos altos de todo o livro, elevando-se à altura das catilinárias de
Herculano, cinco anos antes, na revista “Panorama”.
