ARTE TOTAL PARA UMA VISÃO GLOBAL
DA VIDA
A expressão de Oliveira Martins
que se refere ao reinado de D. João V como “entusiasmo desvairado dessa ópera
ao divino”, prefigura, avant la lettre, a perspectiva de análise que hoje
designamos por “arte total”. De facto, que outra manifestação artística tem um
carácter tão global como a ópera? Ela é um poderoso estimulante sensorial,
através dos sons – canto e música -, e das imagens – cenografia e salas de
espectáculo. Porém, a metáfora do historiador oitocentista tem um alcance mais
vasto pois ela aplica-se à envolvente social que rodeou a corte do rei
magnânimo: verdadeira sociedade do espectáculo em que, desde o cerimonial das
procissões aos solenes Te Deum, da “montanha de pedra” de Mafra aos banquetes
de inúmeros serviços, da Capela de S. João Baptista de S. Roque às igrejas
paroquiais de todo o país, tudo concorria para produzir o efeito de
manifestação do poder régio através do luxo e do espavento.
Convento de Cardais, Lisboa
O guião deste espectáculo tem
dois aspectos complementares: a envolvência religiosa determinada pelas
disposições tridentinas e a afirmação do poder monárquico absoluto. São eles
que orientam as práticas políticas e as opções artísticas, só possíveis com a
remessa maciça de ouro e diamantes do Brasil.
