Nas
comemorações dos 200 anos da Guerra Peninsular, em 2010, numa visita guiada ao
lugar da batalha da Roliça[1] (concelho do Bombarral),
registámos este pequeno monumento situado no meio de pomares de pereiras e
macieiras. Trata-se de um túmulo com os restos mortais do tenente-coronel Lake,
comandante do regimento 29 do exército britânico que ali se bateu contra os
franceses em 17 de Agosto de 1808.
Citamos um texto documental:
«Noventa anos depois destes
acontecimentos, o 29º regimento faz escala em Portugal, na viagem de regresso a
Inglaterra depois da Guerra dos Bóeres na África do Sul. Fiel à tradição, o
regimento visita a Roliça para homenagear os seus antepassados mortos. Fazem-se
escavações. Pelos despojos encontrados, são reconhecidos os restos mortais do
lendário coronel Lake que emocionadamente depositam no singelo túmulo que ali
constroem.
No
silêncio da paisagem este monumento, mais do que lembrar um nome, perpetua a
memória de tantos soldados desconhecidos que aqui se bateram na Guerra
Peninsular.»[2]
Na
altura da visita, a expressão lugar de
memória surgiu espontaneamente para designar este espaço tão intensamente
evocativo. Não nos detivemos sobre o seu conteúdo mais profundo ou sequer sobre
o facto de a expressão nos ter ocorrido de modo tão natural. Foi agora, no
contexto da unidade curricular Memórias e
Identidades, em leituras complementares, que nos interrogámos sobre a
pertinência da designação. Ela entrou há muito no vocabulário corrente, podemos
dizer com propriedade que já faz parte da nossa memória colectiva. De onde
veio? Como se impôs?
Segundo
Joel Candau[3]
foi Frances A. Yates, na obra A arte da
memória, publicada em 1975, quem pela primeira vez estudou sistematicamente
a relação entre memória e lugar. Partiu da verificação de que a retórica antiga
cultivava o domínio da memória como instrumento para os oradores que não
dispunham dos meios que hoje temos e que, para isso, usavam a associação de um
lugar a um conteúdo. A memorização do discurso apoiava-se na fixação prévia de
um itinerário de lugares, de modo a garantir que a visualização mental
permitisse ou facilitasse a colagem de cada parte do discurso, no que Yates
chamou «sistema de lugares de memória».[4] Este processo baseava-se
no conhecimento empírico de que a memória se apoia em espaços fixados pela
nossa visão. Note-se que ainda hoje as reconstituições criminais são feitas nos
lugares do crime como forma de induzir mais facilmente o reconhecimento de algo
que se passou.
Pierre
Nora retomou a expressão «lugar de
memória» num contexto totalmente diferente. Assumindo-se como alguém da terceira
geração dos Annales e ligado à
chamada Nova História, centrou o seu
trabalho em torno do estudo e análise da história contemporânea francesa.
François Dosse, autor de uma biografia de P. Nora[5], descreve o percurso algo
excêntrico deste académico. Sendo professor universitário nas décadas de 70 e
80, ganhou notoriedade como editor de obras históricas, movido por uma
inesgotável curiosidade e abertura a todos os contributos dos seus pares. A sua
capacidade para investigar em parceria com outros historiadores leva-o a
colaborar com Jacques Le Goff, primeiro, e depois, com uma vasta equipa de mais
de cem historiadores que coordenou entre meados dos anos 80 e 90. No âmbito
desse trabalho são publicados «sete
volumes, 135 artigos, mais de 5600 páginas»[6] sob o título genérico Les lieux de mémoire, um empreendimento
gigantesco que alterou decisivamente o panorama da historiografia francesa,
como refere Armelle Enders[7] e cuja amplitude «seria irracional tentar resumir em poucas
linhas», como diz J. Candau. Citando A. Enders: «Esse empreendimento 'memorial', coordenado por Pierre Nora, tem por
origem seu seminário sobre história do presente, na École des Hautes Études en
Sciences Sociales, e durará mais de 10 anos, concluído em 1993 com a publicação
do último tomo dos "Lugares da memória". Propondo o retorno ao
questionamento sobre a nação mediante a análise dos 'lugares da memória'
(material, simbólico, funcional), o primeiro tomo consagra-se à "República"
(1 volume sobre o século XIX), o segundo (3 volumes) à "Nação" (a
partir da Idade Média), e o terceiro (3 volumes) às "Franças" (les France).»
Importa
reter que a feliz expressão “lugares de
memória” em torno da qual se erigiu a obra, acabou por se vulgarizar e até
banalizar, apropriada por uma opinião pública ávida de história mas pouco dada
à leitura e à reflexão. Passou a funcionar como os modernos sound bites da comunicação social, facto
a que não terá sido estranha a utilização do próprio Jack Lang, ministro da
cultura em 1986, que nela se apoiou para defender o relançamento de políticas
de defesa do Património. É o que o próprio Pierre Nora explica numa extensa e
muito elucidativa entrevista dada a Ana Fonseca Brefe, em 1999[8]:
«Eu seria malvisto se reclamasse dessa
difusão e só posso me alegrar de ver a noção servir a boas causas. Mas é
preciso reconhecer que o sucesso, como acontece na maior parte das vezes, se
faz ao preço de interpretações empobrecidas e mesmo em um contra-senso. Um
lugar de memória, para mim, não poderia nunca ser reduzido a um objeto
material, mas sim, ao contrário. A noção é feita para liberar a significação
simbólica, memorial – portanto abstrata – dos objetos que podem ser materiais,
mas na maior parte das vezes não o são. Na verdade, existem somente lugares de
memória imateriais, senão seria suficiente que falássemos de memoriais.»
Tentemos
aprofundar a questão de saber como se constituiu este conceito que, afinal,
aponta para um conteúdo desmaterializado da memória. Na referida entrevista P.
Nora explica longamente que não partiu de uma teorização prévia, mas sim da
intuição de que era necessário um novo olhar sobre a história da França. O seu
projecto centra-se na observação das profundas mudanças históricas desde
Napoleão até aos nossos dias, com a aceleração da história/acontecimento e a
contradição entre a sedimentação da memória colectiva – mítica, sagrada,
emotiva - e a fixação de uma historiografia que a problematiza, dessacraliza e
desmitifica. Diz Nora: «A história é reconstrução
sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é um
fenómeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história uma
representação do passado.»[9]
É
neste conflito entre vivido e reflectido, entre emoção e razão, que se evidencia
a importância da memória, lugar de fixação de lembranças e esquecimentos num
tempo mais espesso e duradouro que, de alguma forma, representa uma resistência
à aceleração da história, ritmada pelos media que transmitem ao homem
contemporâneo «a sensação de hegemonia do
efémero»[10].
O
grande projecto de Nora que se vai centrar numa história da memória radica nas
profundas mudanças verificadas na sociedade francesa a partir dos anos 70: fim
do grande ciclo de crescimento económico pós-guerra e do predomínio da
ruralidade, fim da ideia de França como grande potência mundial, «fim da ideia revolucionária como
organizadora do sentido da história».[11] Nora detecta na sociedade
francesa uma espécie de consciência de perda colectiva que leva à revalorização
do passado nacional e induz como compensação o crescente culto do património.
Este fenómeno leva-o à procura dos «objectos
que fossem portadores dessa expressão do sentimento nacional»[12] e cita, como exemplos, o
Panteão, os monumentos aos mortos, a bandeira nacional, o 14 de Julho, os
museus, etc – memoriais em que se ancorava a consciência nacional e de que ele
vai tentar descobrir o modo como se instituíram e consolidaram. Um vasto campo
que se alargou à medida que o ia percorrendo e onde se cruzam temas como o das
comemorações com seus ritos colectivos ou o da própria história da
historiografia – esse grande território em que evoluem as noções cruciais de memória e história, numa conflitualidade surda que cabe ao historiador das
sociedades contemporâneas compreender e explicar. Nora refere que se tratou de uma
empresa de que nem tinha noção da dimensão quando a ela se abalançou mas que,
com o tempo, foi ganhando novos contornos. O próprio conceito de que temos
vindo a tratar é assim visto por ele:
«(…) se eu me precipitei
sobre a expressão os lugares da memória, que me pareceu se impor desde o princípio para abranger objectos tão
diferentes uns dos outros, essa noção em si mesma quando quisemos defini-la,
cercá-la intelectualmente, tivemos muitos problemas para fazê-lo. Assim, eu
levei muito tempo para elaborá-la, e ela, progressivamente, se transformou.»[13]
Isto
é: o conceito de lugar de memória não
é unívoco. Nem o próprio Nora lhe reconhece nitidez de contornos já que ele
evoluiu ao longo dos anos em que a obra foi sendo publicada. Contudo, numa fase
final destes estudos propôs uma definição que nos pode ajudar a entender a
complexidade do conceito:
«Lugar
de memória, então: toda unidade
significativa, de ordem material ou ideal, que a vontade dos homens ou o
trabalho do tempo converteu em elemento simbólico do património memorial de uma
comunidade qualquer.»[14]
(Pierre Nora – Les lieux de mémoire, Paris: Gallimard, 1997)
Margarida
S. Neves[15]
sistematiza a sua leitura de Nora referindo que os lugares de memória têm três
componentes: material, funcional e simbólica. Explicitando o seu conteúdo
diremos que a componente material é
aquela em que os sentidos apreendem os sinais da memória colectiva – caso dos
memoriais construídos nos lugares de batalhas, os arcos do triunfo, as placas
comemorativas, as bandeiras, os hinos, etc; a funcional que se refere à memória como sinal de identidade, de
demarcação ou, até, de afrontamento face a grupos antagónicos – os rituais
comemorativos, por exemplo, associados ou não à componente material; e a
terceira componente simbólica
constituída pelos significados mais profundos que a memória colectiva atribui a
determinados lugares.
Em
qualquer caso, estes lugares são espaços materiais ou ideais onde coexistem a
história e a memória, em conflito ou em complementaridade, e sempre em mutação
de acordo com as épocas e os grupos que deles se apropriam ou que os impõem. Um
caso paradigmático de um destes lugares de memória é o promontório de Sagres
cujo processo de mitificação Maria Isabel João estudou[16], evidenciando o modo como
se construiu uma narrativa que se foi incorporando na memória colectiva, em
oposição a uma historiografia que se tem mostrado insuficiente para erradicar
os traços mais marcantes dessa memória.
Em
jeito de conclusão, cremos ter delineado em breve resumo a origem e o processo
de afirmação do conceito de lugar de memória. Voltando ao túmulo de Lake nos
campos da Roliça, talvez o olhemos agora com outro entendimento. É um lugar de
memória porque contém em si um simbolismo que o transcende como simples registo
fúnebre; e também porque nele convergiram uma vontade de celebrar, um desejo de
evocar e um apelo a inscrever na eternidade da memória colectiva um acontecimento
que a história regista como definitivamente passado.
J. Moedas Duarte
Trabalho elaborado no âmbito da disciplina
"Memórias e identidades" do Mestrado em Estudos do Património, 2014
___________________________________________________________________
BIBLIOGRAFIA
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[3]
Joel Candau – Antropologia da memória.
Lisboa: Instituto Piaget, 2013, pp. 60 e 188.
[4]
Joel Candau, op. cit, p. 61.
[5]
Apoiamo-nos na recensão de Helenice Rodrigues da Silva inserta na Revista
Brasileira de História [Em
linha], vol. 31, nº 61, São Paulo, 2011. [Conslt. 11 de Maio de 2014].
Disponível em:< http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882011000100020 >
[6]
Joel Candau, op. cit, p.188.
[7]
Armelle Enders - LES LIEUX DE MEMOIRE, DEZ ANOS DEPOIS.[Em linha]in:Estudos
históricos, vol.6, nº 11(1993), Centro de Pesquisa e Documentação de
História Contemporânea do Brasil [Consult. 13 Maio 2014]. Disponível
em:< http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/issue/view/277
>. Em nota final indica o plano completo da obra.
[8]
Ana Fonseca Brefe – Pierre Nora ou o historiador da memória. [Em linha] in: História Social, Campinas, nº 6, 1999,
pp.13-33.[Consult. 10 Maio 2014]. Disponível em: <
[9]
Cf: Renilson R. Ribeiro – Nos jardins do tempo: memória e história na
perspectiva de Pierre Nora [Em linha] in: História
e-história. [Consult. 11 Maio 2014]. Disponível em:<
[10]
Cf: Renilson R. Ribeiro, idem, p.2
[11]
Cf: Ana Fonseca Brefe – Pierre Nora ou o historiador da memória…, p.23.
[12]
Idem, p. 24.
[13]
Cf: Ana Fonseca Brefe – Pierre Nora ou o historiador da memória…, pp. 25-26.
[14]
Citado por Janice Gonçalves in: Pierre Nora e o tempo presente: entre a memória
e o património cultural. [ Em linha] Historiae,
Rio Grande, 3, 2012, pp. 27-46. [Consult. 13 Maio 2014] Disponível em: < http://www.seer.furg.br/hist/article/view/3260/1937
>
[15]
Margarida Sousa Neves – Lugares de memória na PUC-Rio. [Em linha] Pontifícia Universidade Católica- Núcleo de memória, Rio de Janeiro.
[Consult. 13 Maio 2014]. Disponível em:< http://nucleodememoria.vrac.puc-rio.br/site/lugaresmargarida.htm
[16]
Maria Isabel João – Sagres, lugar mítico da memória. [Em linha] In
"Des(a)fiando discursos: Homenagem a Maria Emília Ricardo Marques".
Lisboa : Universidade Aberta, 2005, p. 409-422. [Consult. em 12 Maio
2014]Disponível em:< https://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/375
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