sexta-feira, 19 de maio de 2017

IMAGENS DE HOJE, RECORDAÇÕES DE AMANHÃ, PROJECTOS DE FUTURO





Foi este o trabalho apresentado para conclusão do Mestrado em Estudos do Património.  O Júri encorajou vivamente a hipótese da sua publicação em livro. Espero que tal aconteça e que as circunstâncias necessárias se concretizem. 
Até lá, ficará disponível no repositório da Universidade Aberta, como é de uso no meio académico.

Na primeira página escrevi:


AGRADECIMENTOS

«A elaboração deste trabalho contou com o apoio e disponibilidade de considerável número de pessoas. A todos manifesto o meu reconhecimento e gratidão.

Desde logo, a quem gere as fontes documentais, nomeadamente a Câmara Municipal de Torres Vedras, na pessoa da sua vereadora Dr.ª Ana Umbelino, toda a equipa do Museu Municipal Leonel Trindade e os funcionários do Arquivo Municipal bem como da Biblioteca Municipal de Torres Vedras.
Igualmente à União Sindical de Torres Vedras.
Aos antigos trabalhadores da Casa Hipólito que se prontificaram a dar testemunho oral das suas memórias, agradeço a total disponibilidade demonstrada. Nomeadamente ao Luís Fortes e Armando Firmo pelas informações e documentação facultada, assim como à Arminda Pacheco pela entrega do espólio de seu marido, já falecido.

Aos familiares do Comendador Hipólito que me facultaram informações e fotografias, com destaque para Ana Maria Hipólito Carreira e Luísa Hipólito. Menção especial para António Bentick Coelho, pelo acervo fotográfico que connosco partilhou.

É de toda a justiça realçar a realização técnica das vídeo-gravações que foi garantida pelo nosso conterrâneo e amigo, Joaquim Jordão Pereira, membro dos Corpos Gerentes da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras e director da Torres Vedras TV, um canal de televisão local. Trabalho pro bono, fruto de grande sensibilidade patrimonialista e elevado sentido cívico e cultural. Para ele a minha gratidão.

À minha mulher Manuela Catarino, o meu infinito reconhecimento pelo apoio e incentivo permanentes, a valiosa colaboração em vários momentos da investigação e a revisão minuciosa da escrita. Ela foi, verdadeiramente, a alma mater deste trabalho.


Ao Professor Dr. Paulo Oliveira Ramos, meu orientador académico, agradeço a confiança que desde o início depositou em mim, aconselhando-me quando necessário e transformando o convívio profissional em amizade e estima.»
(Texto inicial do trabalho)

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ALGUMAS IMAGENS DA DEFESA DA DISSERTAÇÃO 
 SALÃO NOBRE DA UNIVERSIDADE ABERTA - 17 MAIO 2017



Júri (da esq. para a dir.): Prof. Dr. José Mª Amado Mendes, Prof. Dr.João Luís Cardoso e Prof. Dr. Paulo Oliveira Ramos






O meu profundo reconhecimento e gratidão aos meus familiares e amigos que puderam partilhar comigo estes momentos de evocação de memórias. 
Igualmente ao Júri, pela simpatia e alto profissionalismo evidenciados em todo o processo; e também à Universidade Aberta, onde me senti sempre em território amigo. 
Esta etapa chegou ao fim. 
Outra virá, na sequência desta: não de cariz académico mas sim como concretização dos projectos sugeridos na parte final deste trabalho sobre a CASA HIPÓLITO.

A preservação da memória daquela que foi a maior empresa de Torres Vedras é a tarefa a que meti ombros e quero levar a bom porto. Há ainda muitos depoimentos orais a gravar. Há o Fundo Casa Hipólito, no Museu Municipal, que necessita de ser inventariado em moldes mais eficientes. Há a necessidade de criação de um espaço museológico dedicado às memórias do trabalho no nosso concelho - o que supõe a realização de um inventário das empresas industriais que  aqui existiram.
É um trabalho que não serei capaz de fazer sozinho, terei de encontrar uma equipa que queira colaborar. 
Com persistência, lá chegaremos.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

META À VISTA E CONVITE






Foi em Setembro de 2013 que iniciei a caminhada deste Mestrado. Percurso longo, enriquecedor e gratificante. Hoje tenho a meta à vista.
Contudo,  esta metáfora não será muito feliz. Nem eu sou corredor de fundo nem o percurso é uma maratona de resistência. Embora tenha alguns desses atributos, um Mestrado é muito mais do que isso. Ao fim destes anos, sinto que não sou o mesmo - e esse é o significado mais profundo deste tempo. Aceder ao conhecimento, sabendo que ele nunca se esgota. Questionar para encontrar novas interrogações. Descobrir veredas e atalhos. Perder-se neles e voltar ao princípio. Sentir a alegria do montanhista quando atinge novo cume.

Um desses cumes foi a revelação de que me parecia atribuída uma missão na misteriosa complexidade da vida. Uma epifania, no sentido filosófico do termo: resgatar a memória da CASA HIPÓLITO, a maior empresa de Torres Vedras que nasceu, cresceu, foi adulta. entrou em decadência e teve o seu fim - ao longo de todo o século XX.

O trabalho a que me dediquei nestes  anos vai agora ser apresentado:

CASA HIPÓLITO: MEMÓRIAS E PATRIMÓNIO DE UMA FÁBRICA TORRIENSE.

Não é a última palavra sobre o assunto, é um contributo a acrescentar a outros.
Como digo em dado passo do trabalho:

Temos consciência das limitações deste trabalho, incursão pioneira em território mal conhecido de onde apenas havia notícias parcelares, dispersas e frequentemente veiculadas pelo preconceito. Eivada de alguma temeridade e de muito entusiasmo, esta caminhada exigiu vigor de estafeta que inicia o percurso. Bom será que venham outros e peguem no testemunho. Decerto chegarão mais além no conhecimento da que foi a mais importante unidade fabril do concelho de Torres Vedras no século XX. 

E também:

Cientes destas condicionantes, propusemo-nos escrever a História da Casa Hipólito, articulando-a com as Memórias e o Património da empresa. Porém, no decorrer do nosso labor apercebemo-nos de que a componente histórica, só por si, exigiria um programa de investigação que não cabia nos nossos propósitos.[1] Acresce que o processo de falência ainda não está concluído – dezoito anos passados sobre o Despacho judicial decisório – e os intervenientes têm ainda muito fresca a lembrança dos conflitos que lhe estão ligados. Há interesses antagónicos em jogo que correm seus trâmites nos corredores judiciais – desde dívidas aos trabalhadores até às que são reivindicadas pela Fazenda Pública. Como fazer a História de algo que ainda está tão vivo?
Assim sendo, optámos por uma abordagem memorialística orientada pela linha do tempo cronológico Mais do que uma narrativa histórica sistemática e global, o que propomos é um olhar através do qual fomos fixando quadros, momentos, parcelas - das memórias vivas e das reminiscências escritas. Será uma pequena História?[2]
Quanto à História da empresa, construída numa perspectiva totalizante, na qual se esgotem os aspectos económicos, técnicos e sociais, alguém a escreverá um dia, numa construção serena só possível com o aval do tempo. Até lá, fixemos algumas memórias, recordemos episódios, guardemos a lembrança. A mais não aspiramos, na humildade de quem se abeirou do passado recente com o único intuito de o não deixar cair no esquecimento. Que dele perdure a memória.




[1] Uma História da empresa implicaria a abordagem sistemática de informações de carácter económico (investimentos, lucros, dividendos…), social (número de trabalhadores, sua caracterização e origem…), de gestão (administração, organização fabril…), de produção (instalações, produtos fabricados, tecnologias usadas…), seriação e tratamento de dados quantitativos (quantidades de produtos fabricados, dimensão do mercado interno e das exportações, evolução dos custos…), etc.
[2] Correndo o risco de reducionismo teórico, temos presente a reflexão de Ronaldo Vainfas no seu Os protagonistas anónimos da História – Micro-história (Rio de Janeiro, Ed. Campus, 2002), nomeadamente quando cita Pierre Nora numa entrevista dada por este, em 1974, ao Nouvel Observateur: “É essa noção de história total que me parece problemática hoje. Vivemos uma história em migalhas, ecléctica, ampliada em direcção às curiosidades, às quais não precisamos nos recusar”(p. 33).

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Por tudo isto, o CONVITE que aqui deixo é um apelo de partilha. A defesa desta dissertação de Mestrado não é uma manobra de afirmação pessoal. É, sim, um passo para preservar a memória daquela que foi a maior empresa de Torres Vedras e, também, uma proposta de perpetuação patrimonial através da criação de um espaço museológico dedicado às memória do trabalho.

terça-feira, 7 de junho de 2016

TÓPICOS SOBRE O CONCEITO DE MEMÓRIA



DA MEMÓRIA INDIVIDUAL À MEMÓRIA COLECTIVA E À MEMÓRIA SOCIAL

Uma primeira verificação: a memória é uma faculdade humana com duas vertentes que se interpenetram: a individual e a social. Numa e noutra ela é o cimento que liga os tijolos da construção. Sem memória não há consciência individual nem sentido grupal societário. Mas enquanto a memória individual depende, em primeira instância, da condição orgânica (cérebro e conexões nervosas) sobre a qual se sedimentam as vivências colectivas (família, tribo, etnia, nação…), a memória social depende sobretudo da coesão do grupo que lhe é conferida pela acumulação dos registos, orais ou escritos e pela hierarquização das relações entre os seus elementos (organização do Poder).

O homem, desprovido de memória orgânica, está à mercê do acaso. Mas, confinado a ela, pouco mais é do que um organismo vivo que se esgota nas tarefas da sobrevivência. É a vivência grupal em que acumula experiências através da vida de relação que lhe confere uma dimensão supra-individual. A justaposição de experiências individuais é a base da cultura, que se estrutura ao longo do tempo através da sedimentação das memórias individuais que a sucessão das gerações transforma em memória colectiva. Dito de outro modo: a cultura é a expressão organizada das memórias individuais transformadas ao longo do tempo em memória colectiva, constituindo um «padrão de significados transmitido historicamente...»[1].

É a regularidade e persistência das manifestações culturais e o seu reconhecimento como património por um grupo social que confere à memória colectiva o carácter de memória social.





[1] Cf. Pedro Cardim in: A história: entre memória e invenção. Cursos da Arrábida, nº 03, Comissão Nacional para a comemoração dos descobrimentos portugueses e Publicações Europa-América, Mem Martins, 1998, p. 15

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     MEMÓRIA E HISTÓRIA


            Parto da leitura dos dois estimulantes textos que acabo de ler - da Clotilde e da Vanda - que tocam em dois aspectos sensíveis do fenómeno da memória social: por um lado o recurso a um património milenar como forma de esconjurar os demónios do presente, no caso do Cambodja; por outro a invenção de uma tradição para inculcar um ponto de vista ideológico, bem descrito no texto sobre o concurso para escolher “a aldeia mais portuguesa de Portugal”.

           Numa leitura superficial verificamos que, no primeiro caso, a recuperação do património tem uma dimensão redentora para a memória colectiva; enquanto no segundo há uma manipulação deletéria, executada em nome de controversos valores nacionalistas – o que nos sugere uma interrogação: há boas e más manipulações da memória colectiva?

          A questão não é puramente académica nem deve ser colocada no campo da ética política, como bem mostrou Eric Hobsbawm[1]. De facto, todas as sociedades manipulam as suas memórias quando reinterpretam e reescrevem o seu passado, pois a historiografia não é uma descrição fiel desse passado mas um olhar sobre ele que tem, como pano de fundo, a busca e a afirmação de uma identidade. E como bem diz a colega Clotilde, «a identidade não é estável; é mutável, provisória e subjectiva, sendo reconstruída ao longo dos tempos».

          Aqui radica o problema da afirmação da História como disciplina científica - que tivemos ocasião de estudar no anterior semestre, -  exactamente para que ela não seja um instrumento ao serviço de alguém mas um poderoso veículo de inscrição identitária das sociedades.  

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MEMÓRIA E IDENTIDADE

           A palavra memória tem repercussões muito fortes na memória social. Desde o “fazei isto em memória de mim” – cerne da vivência religiosa dos crentes católicos – até ao “em memória de…” das inscrições tumulares, o apelo toca nos mais fundos sentimentos da nossa vida, seja no aspecto individual como no social. A referência à memória tem ressonâncias afectivas. Apela à eternização da relação, ao prolongamento no tempo futuro de um estado de espírito vivido no presente. É a memória que permite a continuidade da corrente de consciência. Apagá-la significa provocar o curto-circuito e a escuridão identitária.

          Por isso a perda total da memória no ser humano é o estado mais próximo da morte física. É raro acontecer porque «a memória não é um sistema único e unitário» [1]. Contudo, a nossa experiência pessoal ilustra a tragédia da amnésia, mesmo que parcial, quando a vemos num familiar.[2] Ele deixa de ser quem era, torna-se um estranho para ele e para nós, experiência dramática para quem a vive. Torna evidente que a memória individual, como função e processo mental, é a base da identidade pessoal. Perder a memória é perder a identidade, é dissolver-se no inominado, é deixar de ser.




[1] Amâncio da Costa Pinto – Psicologia Geral. Lisboa: UAb, 2001. p. 110.
[2] Permita-se-me uma referência pessoal: assisti, angustiado e impotente, à morte prematura de minha mãe quando ela começou a perder a memória. A morte física viria a ocorrer alguns anos depois. Durante cerca de três anos ela existia mas já não era.


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QUADROS SOCIAIS DA MEMÓRIA

            «Nunca nos lembramos sozinhos: pode-se resumir desta forma a tese de Halbwachs. Um indivíduo volta-se sempre para o passado, o seu ou o do grupo a que pertence, socorrendo-se mais ou menos dos quadros sociais em que ele vive.» Esta formulação de Joël Candau[1] resume o essencial da tese de Halbwachs. A memória é uma faculdade mental do indivíduo mas ela exerce-se dentro de quadros sociais que estão para além dele, que o envolvem. O principal é a linguagem mas há outros como as tradições, as relações sociais (parentesco, vizinhança...), etc.
           J. Candau põe sérias reservas ao conceito de memória colectiva usado por Halbwachs, considerando-o de conteúdo vago mas acaba por reconhecer que ele tem utilidade prática «porque não há outra forma de designar algumas formas de consciência do passado (...) aparentemente partilhadas por um conjunto de indivíduos.»[2] (a tradução é infeliz nesta repetição de formas...). Mais convincente será, no dizer de J. Candau, a noção de quadros sociais da memória[3], isto é, o conjunto de constrangimentos culturais que enformam a memória individual dos elementos de um determinado grupo social. 




[1] Joël Candau – Antropologia da memória. Lisboa: Instituto Piaget, 2013, p. 84.
[2] Op. cit. p. 88.
[3] Idem, p. 93.


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MEMÓRIA COLECTIVA/ MEMÓRIA SOCIAL

                Estas são noções que encontramos em muitos textos com uma carga semântica equivalente. A primeira criou raízes com as obras de M. Halbwachs e tem maior uso no mundo francófono; a segunda está mais ligada ao universo anglófono[1]. Contudo, parece-nos que, nas margens da semelhança semântica há zonas autónomas que talvez possam ser consideradas.
Já aqui escrevemos que «é a regularidade e persistência das manifestações culturais e o seu reconhecimento como património por um grupo social que confere à memória colectiva o carácter de memória social.»

             Tentando ser mais explícito, propomos que o conceito de memória colectiva se aplique às formas indiferenciadas e inorgânicas com que o passado se apresenta à memória de um grupo humano: os mitos, as narrações fabulosas, as gestas heroicas, a recordação de factos transfigurada por narrativas mais ou menos fantasiosas. Essa amálgama que se esbate num passado comum constituirá a base de uma memória colectiva. Terá sido este o entendimento de Jacques Le Goff («preferir-se-á reservar a designação de memória colectiva para os povos sem escrita»[2]).
            Por outro lado, propomos que o conceito de memória social se aplique às formas organizadas de abordar o passado, isto é, à historiografia, - na perspectiva da função social da história que Jacques Le Goff cita a partir de Lucien Febvre e Halbwachs[3], - bem como ao reconhecimento/apropriação de sinais específicos (monumentos, património material) e de manifestações culturais (património imaterial) susceptíveis de conferir consciência identitária a um determinado grupo humano.

            É uma tentativa de clarificação conceptual. Será útil?




[1] Maria Isabel João – Memória, História e Educação in: NW noroeste, revista de história, Universidade do Minho, 1, 2005, p. 85.
[2] Jacques Le Goff – Memória, in Enciclopédia Einaudi, vol 1, Memória-História, Lisboa, IN-CM, 1984, p. 14
[3] Idem, História, p.164.

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CONSCIÊNCIA IDENTITÁRIA

A sociedade é constituída por uma gama infinita de indivíduos que podem agrupar-se de acordo com essas categorias. Daí me parecerem pouco rigorosas - e até abusivas - expressões como "cultura portuguesa" ou (pior ainda!...), "alma portuguesa", "raça portuguesa", etc.
A experiência mostra-nos que a consciência identitária tem raízes muito diversas que podem ir da etnia ao escalão etário, do lugar de habitação (os bairros...) ao grau de escolaridade, da origem de classe à prática de uma religião, de um desporto, de uma opção de vida.
         Contudo, há categorias gerais de cidadania que parecem sobrepor-se aos particularismos identitários. Refiro-me, por exemplo, à noção de nacionalidade (português vs. espanhol...) ou ao uso de uma Língua comum. 
Os diversos graus de abragência destas categorias dão origem a várias formas de identidade o que faz com que um indivíduo as acumule na sua caracterização: português, jovem, transmontano, licenciado em X, praticante de aeromodelismo, etc...

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CONSCIÊNCIA IDENTITÁRIA E MEMÓRIA

Eu não sou eu nem sou o outro, 
Sou qualquer coisa de intermédio: 
    Pilar da ponte de tédio 
    Que vai de mim para o Outro. 

(Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro')


              Esta célebre quadra de Mário de Sá-Carneiro ilustra bem o desajustamento identitário de alguém que não tem referências estáveis em que se ancore a personalidade. Dado o tom confessional do poema, é-nos lícito supor que ele reflecte os condicionalismos da vida privada do poeta, que João Gaspar Simões elucidou na Vida e Obra de Fernando Pessoa, (Pessoa, o grande amigo e confidente): órfão de mãe aos dois anos, criado por amas a quem um pai ausente deixava quantias avultadas para as despesas de educação, Mário de Sá Carneiro cresceu sem modelos nem constrangimentos. 

             De certo modo, este é um caso exemplar que nos pode ajudar a definir quais as condições necessárias para a afirmação da identidade individual e para a representação que sobre ela tem o sujeito: crescimento acompanhado pela proximidade de modelos adultos numa relação afectuosa; definição de regras de conduta, sujeitas a limitações impostas/negociadas por e com esses modelos; estabilidade económica sem excesso de meios, para não induzir a falsa ideia de que tudo é devido e permitido. 
Este exemplo, oportunamente trazido pelo Manuel L., lembrou-me o caso de Teixeira de Pascoaes que, no Livro de Memórias, rememora o seu passado e encontra nele a base da vida presente:

           «A vida é memória, colecção de imagens fabulosas e um olhar desolado que as contempla; um olhar que vem através da noite do infinito e brilha, dentro em nós, como a própria luz da consciência.»[1]

          Isto é: a consciência é a representação da identidade e radica na memória do vivido em relação com os outros. Sem o acervo da experiência não há memória e sem memória o sujeito é um fantasma a caminho da auto-aniquilação – como Mário de Sá-Carneiro que se suicidou com 26 anos.




[1] Teixeira de Pascoaes – Livro de memórias. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 46

COMEMORAÇÃO, MEMÓRIA E HISTÓRIA

                                                                               



Quarenta anos após o 25 de Abril de 74, qual o significado da comemoração daquele acontecimento? Propomo-nos reflectir sobre as diferentes percepções do tempo histórico e procurar entender as teias em que se cruzam as memórias e a história na comemoração daquela data. E também reconhecer o papel do ensino na formação de uma memória histórica que corrija as limitações e as manipulações da memória colectiva.


Neste Abril de 2014, em revistas, jornais, reportagens na televisão e na rádio, milhares de páginas foram escritas e imagens divulgadas, mostrando à saciedade que «as memórias não nos transmitem a realidade, mas a visão, a imagem, a representação que os seres humanos têm da realidade»[1] .
Não há um 25 de Abril, há múltiplos. E se a memória colectiva é o resultado de um jogo oculto entre lembrança e esquecimento[2], é bem visível nesta multiplicidade que os mecanismos desse jogo variam de acordo com factores subjectivos muito diversos, consoante os contextos sócio-políticos em que se moveram os actores daquele acontecimento histórico - o que torna muito problemática a abordagem tendencialmente objectiva do historiador, mais ainda se ele mesmo foi actor. [3] Veja-se, a título de exemplo, o livro de Raquel Varela, HISTÓRIA DO POVO NA REVOLUÇÃO PORTUGUESA 1974/75, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, recentemente publicado e desde logo objecto de polémica pelo olhar inovador e, de certo modo, questionador de uma certa historiografia dominante.
Contudo, paralelamente ao esforço dos historiadores para estabelecerem uma leitura científica do nosso passado recente, mantêm-se activas as fontes da memória colectiva, seja a de cariz favorável ao 25 de Abril seja a de sinal contrário, como é o caso da assunção clara das memórias de alguns anti-abrilistas militantes, na revista do semanário Expresso 25 DE ABRIL 40 ANOS. Esta diversidade sublinha quanto é ilusório um consenso sobre aquela data, como se confirmou com as duas comemorações antagónicas na Assembleia da República e no Largo do Carmo e como – apesar dos apelos do Presidente da República, é impraticável o entendimento entre os partidos políticos acerca dos problemas essenciais do país.[4]

A comemoração dos 40 anos do 25 de Abril  inscreve-se na tendência comemoracionista característica das sociedades contemporâneas, fenómeno bem estudado por Fernando Catroga e Maria Isabel João.[5] O acto de comemorar reveste sempre a intenção de perpetuar algo, opondo à inexorável marcha do tempo a barreira da rememoração. É uma forma de prevenir o esquecimento e de garantir a presença do passado junto das franjas populacionais mais jovens que, por não terem vivenciado os acontecimentos considerados dignos de comemoração, têm tendência para os desvalorizar. Contudo, estas comemorações são bem diversas das que o Estado Novo obsessivamente promoveu, na senda da sua permanente autojustificação e que tiveram, em 1940, o coroamento lógico com a junção das duas datas mais simbólicas da nacionalidade, a da fundação de Portugal e a da Restauração da independência. Aquelas revestiram-se de elevado sentido simbólico, aparentemente imunes à impossibilidade de consenso que, sabemo-lo hoje, não passava de ilusória promessa de unanimismo nacionalista e desprezo militante por qualquer visão oposta – em contraste com as de agora, permeáveis à evidência de que qualquer acto comemorativo está sujeito «às tensões decorrentes da luta pela hegemonização do poder simbólico, condição essencial de radicação de todo o poder[6]

Tal como acontecia ainda não há muito tempo com o 5 de Outubro e a implantação da República, as comemorações do 25 de Abril mostraram, mais uma vez, que se trata de uma data geradora de conflitos interpretativos. Mas essa é, afinal, a matriz comum a qualquer data em particular ou a qualquer narrativa histórica em geral.[7]
Será que tais dissensões radicam na questão de saber se é possível uma historiografia consensual, universalmente aceite, tão indiscutível como a lei da gravidade? Tal hipótese é sustentada por um certo discurso comum que apela para o julgamento da história como justificativo de opções tomadas: “A história dirá quem tem razão!” – ouvimos ainda, aqui e ali. Mas esta é uma questão que a historiografia já resolveu desde que a chamada Nova História rejeitou as ilusões positivistas e estabeleceu as bases da história crítica – visão histórica não partilhada, naturalmente, pelo regime anterior a Abril de 74 para o qual só poderia existir uma história oficial, ensinada no “livro único”.

Adiantamos outra hipótese: apesar do copioso acervo de trabalhos históricos dedicados ao 25 de Abril e aos anos que se lhe seguiram[8], permanecem áreas de penumbra em que não parece possível, ainda, destrinçar o que é memória colectiva do que é história. É uma hipótese viável se aceitarmos que foi nesse espaço que se defrontaram as interpretações ideológicas sobre o Abril de 1974, desde essa data até ao presente.
Maurice Halbwachs abordou aprofundadamente esta questão e propôs que a história só tem lugar depois do apagamento da memória colectiva, o que pressupõe um afastamento temporal entre o historiador e o acontecimento narrado. Memória e história seriam conceitos antitéticos, a segunda só teria lugar quando se extinguisse a primeira.

«C'est qu'en général l'histoire ne commence qu'au point où finit la tradition, au moment où s'éteint ou se décompose la mémoire sociale. Tant qu'un souvenir subsiste, il est inutile de le fixer par écrit, ni même de le fixer purement et simplement. Aussi le besoin d'écrire l'histoire d'une période, d'une société, et même d'une personne ne s'éveille-t-il que lorsqu'elles sont déjà trop éloignées dans le passé pour qu'on ait chance de trouver longtemps encore autour de soi beaucoup de témoins qui en conservent quelque souvenir.»[9]

Pierre Nora acentuou esta oposição entre memória e história quando escreveu que «longe de serem sinónimos, tudo as opõe.»[10]
Curiosamente, esta concepção era a que presidia ao ensino da história em Portugal antes de Abril de 1974. Mas aí a história contemporânea estava afastada dos programas escolares por razões claramente ideológicas e não por outras. O regime de Salazar/Caetano entendia que seria nociva a abordagem do que chamava “os novos ventos da história”, emergentes após o final da Segunda Guerra Mundial, caracterizados pela implantação dos regimes democráticos de tipo ocidental e pela concessão da autodeterminação e independência aos povos colonizados. Este vazio de história permitia que fosse a memória colectiva, elaborada ou manipulada pelo regime, a sustentar e justificar as suas opções políticas. Impôs-se assim uma narrativa ideológica coerente e globalizadora expressa no slogan “Deus, Pátria, Autoridade e Família”, resumo e bandeira de valores indiscutíveis e universais[11]. Nesta construção ideológica encontramos todas as características da memória colectiva exaustivamente descritas por Halbwachs na obra citada, bem como por Pierre Nora em Les lieux de mémoire[12] - bem esquematizadas por Maria Isabel João[13].

No entanto esta visão radical que opunha memória e história está hoje muito atenuada como tem sido demonstrado por François Dosse, pois assentava na concepção da história como disciplina positivista, firmada na crença da total objectividade dos processos hermenêuticos, uma perspectiva epistemológica actualmente posta em causa. Walter Benjamin opôs a este modelo, um outro voltado para a interpretação dos acontecimentos e para a busca do seu sentido[14], o que abre caminho à confluência entre os dados de conhecimento facultados pelas memórias – individual e colectiva - e o trabalho do historiador que os analisa e lê, numa mediação crítica garantida pelos modernos instrumentos de pesquisa hoje universalmente aceites como base de conhecimento científico reconhecido à historiografia contemporânea.[15]

A revalorização da história contemporânea assim operada abre caminho à sua abordagem como disciplina nuclear no sistema de ensino. Longe de ficar à espera que os anos passem para depois se pronunciar sobre os acontecimentos, a história assume a capacidade para ler os acontecimentos contemporâneos à luz de práticas historiográficas já testadas, em articulação com as metodologias usadas pelas outras ciências humanas, nomeadamente a sociologia e a antropologia; mas também a economia política, o direito, a diplomática, a psicologia social, a demografia, a geografia, etc.
Ao contrário do que seria de esperar, os jovens têm uma visão maioritariamente crítica sobre a ditadura[16], o que pode significar que se identificam com o maior valor atribuído ao 25 de Abril – a conquista da Liberdade. Contudo, é bem sabido que as memórias são realidades voláteis que sofrem a usura do tempo e das circunstâncias. Períodos de crise, ciclos de penúria material, desemprego e insegurança podem fazer inverter muito rapidamente os elementos positivos de identidade social. É por isso que o ensino da História é um factor crucial para a consciencialização cívica das gerações mais novas e uma barreira para as manipulações de caudilhos populistas que sempre aparecem nos períodos conturbados da vida social.

O ensino da História pode e deve «contribuir para forjar uma memória fundada na razão, informada, crítica e plural. Uma memória histórica que tenha quadros de referência suficientes para pensar sobre o mundo e a sociedade, para continuar a informar-se e a ter interesse pela história.»[17]
As comemorações do 25 de Abril avivam memórias contraditórias entre os que o viveram e induz incertezas de apreciação entre os jovens que dele ouvem falar. Constituem um momento de acentuado valor simbólico em que o passado penetra no presente mas é por este contaminado pelas dissensões e contradições que pontuam a marcha das sociedades humanas. A partir dessa força simbólica, os poderes constituídos têm tendência a invocar uma unidade perdida que teria existido na data comemorada.[18] Fazem-no como forma de exorcizar as divergências do presente ou de defender projectos de futuro, o que significa, de qualquer modo, formas mais ou menos subtis de manipulação das memórias.
Cabe aos guardiões da História a defesa de uma memória crítica que se oponha às manipulações e apetreche as novas gerações com instrumentos de análise e de compreensão do passado que lhes permitam intervir na vida social e política como cidadãos lúcidos e conscientes.

Joaquim Moedas Duarte
"Memórias e Identidades" - Mestrado em 
ESTUDOS DO PATRIMÓNIO
2014



BIBLIOGRAFIA

CATROGA, Fernando – Ritualizações da história / As comemorações como liturgias cívicas, in:
História da história de Portugal – sécs XIX-XX. Lisboa: Círculo de Leitores, 1996.

JOÃO, Maria Isabel – Memória e identidade, Universidade Aberta, 2014.

JOÃO, Maria Isabel - Memória, história e educação. In: separata da Revista NW noroeste, revista            de História, Núcleo de Estudos Históricos da Universidade do Minho, Braga, 2005.

HALBWACHS, Maurice - La mémoire colective. Édition critique, Paris,: Éditions Albin Michel,
            1997.

TORGAL, Luís Reis – História, divulgação e ficção, in: História da história de Portugal – sécs XIX-XX. Lisboa: Círculo de Leitores, 1996.

*
WEBGRAFIA

BARRIÈRE, Philippe - La Deuxième Guerre mondiale entre histoire et mémoire(s): épistémologie,
méthodologie et déontologie [Em linha]. [Cons. em 30 Abril 2014]. Disponível em: < http://www.ac-grenoble.fr/histoire/programmes/lycee/classique/terminale/hist/histoireetmemoirei.pdf

DOSSE, François -  Entre histoire et mémoire:une histoire social de la mémoire [Em linha] Raison présente,
Setembro 1998, p. 3. [Consultada em 30 Abril 2014]. Disponível em: <

JOÃO, Maria Isabel - Memória e história: os problemas e o método, [Em linha], UAb, disponível
em:

JOÃO, Maria Isabel  – O ensino e a memória histórica. [Em linha] Associação de Professores de História,
               s.d., Opinião. [Cons. 4 Maio 2014]. Disponível em:<
               http://www.aph.pt/ex_opiniao7.php

REZOLA, Inácia – Ensinar a história do século XX: o 25 de Abril [Em linha]. Associação de Professores
de História, Circular informação 81, Maio 2012, com um detalhado registo do movimento editorial acerca do 25 de Abril. [Cons. 4 Maio 2014]. Disponível em:<

RICOEUR, Paul  – Memória, história, esquecimento. Conferência proferida em Budapeste em 8 de Março
de 2003. [Em linha]. [Cons. 4 Maio 2014]. Disponível em:<

SILVA, Helenice Rodrigues da – “Rememoração” / Comemoração: as utilizações sociais da memória. [Em
linha]. Revista Brasileira de História, vol 22, nº 44, São Paulo, 2002. [Cons. 4 Maio 2014].






[1] Cf: Maria Isabel João, Memória e história: os problemas e o método, [Em linha], UAb, disponível em https://www.dropbox.com/sh/dqtan65xgi515hy/g6rR-Y-jtG/T1_Memoria_e_%20Historia.pdf, p.1.
[2] Cf Paul Ricoeur – Memória, história, esquecimento. Conferência proferida em Budapeste em 8 de Março de 2003. [Em linha]. [Cons. 4 Maio 2014]. Disponível em:<
[3] Cf: Luís Reis Torgal – História, divulgação e ficção, in: História da história de Portugal – sécs XIX-XX. Lisboa: Círculo de Leitores, 1996, pp. 491- 545. O autor analisa detalhadamente a relação entre a escrita da história e o posicionamento ideológico de quem a escreve alargando o campo de pesquisa à área da divulgação histórica, a mais vulnerável à manipulação com fins doutrinários.
[4] Cf. Discurso de Cavaco Silva na Assembleia da República na sessão solene de 25 de Abril de 2014. Disponível em: http://www.presidencia.pt/?idc=22&idi=83219.
[5] Fernando Catroga – Ritualizações da história / As comemorações como liturgias cívicas, in: História da história de Portugal – sécs XIX-XX. Lisboa: Círculo de Leitores, 1996, pp. 547-671.
Maria Isabel João – Memória e Império – comemorações em Portugal (1880-1960). Dissertação de Doutoramento em História Contemporânea.[Em linha]Universidade Aberta, 1999.[Cons. 4 Maio 2014]. Disponível em:< https://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/2466
[6] Fernando Catroga, op. cit, p. 548.
[7] Cf. Luís Reis Torgal, op.cit., p.491: «Seja como for, entendemos como José Mattoso, que a história é, efectivamente, uma “representação de representações”.»
[8] Ver artigo de Inácia Rezola – Ensinar a história do século XX: o 25 de Abril [Em linha]. Associação de Professores de História, Circular informação 81, Maio 2012, com um detalhado registo do movimento editorial àcerca do 25 de Abril. [Cons. 4 Maio 2014]. Disponível em:<
[9] Maurice Halbwachs – La mémoire colective. Édition critique, Paris, Éditions Albin Michel, 1997, p. 130.
[10] Citado por François Dosse in Entre histoire et mémoire:une histoire social de la mémoire [Em linha] Raison présente, Setembro 1998, p. 3. [Consultada em 30 Abril 2014]. Disponível em: <

[11] Cf: Discurso de Salazar pronunciado em Braga, no 10º aniversário do 28 de Maio, em 1936: «Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a Pátria e a Nação. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral». In: Discursos, Vol. II, Coimbra Editora, 1936, pp. 128/129.
[12] Citado por Philippe Barrière in La Deuxième Guerre mondiale entre histoire et mémoire(s): épistémologie, méthodologie et déontologie [Em linha]. [Cons. em 30 Abril 2014]. Disponível em: < http://www.ac-grenoble.fr/histoire/programmes/lycee/classique/terminale/hist/histoireetmemoirei.pdf
[13] «[A] Memória colectiva é espontânea ou elaborada, fruto da vivência e dos interesses dos grupos, funda-se no sentimento, na emoção, numa visão  subjectiva e idealizada do passado e do próprio grupo, é imprecisa, vaga em relação ao tempo e ao espaço e pouco fiel aos factos, conserva por um momento, apaga, reinventa a seu gosto. A memória colectiva geralmente divide.» in: Maria Isabel João – Memória e identidade, Universidade Aberta, 2014.
[14] Cf. François Dosse, op. cit. p. 5.
[15] Cf. Helenice Rodrigues da Silva – “Rememoração” / Comemoração: as utilizações sociais da memória. [Em linha]. Revista Brasileira de História, vol 22, nº 44, São Paulo, 2002. [Cons. 4 Maio 2014]. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-01882002000200008&script=sci_arttext >
[16] Cf. Inácia Rezola, op. cit., p.2
[17] Cf. Maria Isabel João – O ensino e a memória histórica. [Em linha] Associação de Professores de História, s.d., Opinião. [Cons. 4 Maio 2014]. Disponível em:< http://www.aph.pt/ex_opiniao7.php ;
E também: - Memória, história e educação. In: separata da Revista NW noroeste, revista de História, Núcleo de Estudos Históricos da Universidade do Minho, Braga, 2005.
[18] Cf. comunicação ao país do Primeiro Ministro Passos Coelho em 4 de Maio de 2014 em que invoca uma mítica pureza unanimista do 25 de Abril para justificar as suas opções políticas.