segunda-feira, 25 de novembro de 2013

CARTA AO MEU PAI QUE NÃO QUER QUE EU SEJA ARQUEÓLOGO


Olá pai

Separámo-nos ontem, amuados. Hoje, nem pensar falar contigo pois sei que te vais exaltar outra vez. Ainda tenho nos ouvidos a tua fúria: “Não contes comigo para te pagar um curso que te vai levar directamente para o desemprego! Não contes comigo!!”.
Acredito que queres o meu bem, tens sido um pai muito fixe, mas acho que ainda não aceitaste a ideia de que eu tenho 18 anos. Já tenho direito a votar, ok?
Então pensei em escrever-te uma carta. Se calhar vais estranhar. Acho que nunca te escrevi. Só bilhetes de recados. Espero que consigas ler com calma.
Porque é que eu quero ser arqueólogo? Ontem fizeste-me essa pergunta, a gozar, e disseste que eu me queria armar em Indiana Jones. Estás enganado, pai. Vou tentar explicar-te a minha ideia, pode ser que te consiga fazer mudar de opinião.

Lembras-te do dr. Monteiro, meu professor de História no 11º ano, de quem eu falava muito? Numa aula levou-nos ao Museu Municipal para vermos a exposição sobre o Castro do Zambujal. Falámos disso cá em casa, e tu a dizer que aquilo eram só pedras velhas. Eu mostrei-me muito curioso e o professor, um dia, fez-me uma surpresa e levou-me ao Castro, quando lá estavam a fazer escavações. Vi lá muita malta nova a trabalhar e uns arqueólogos alemães que dirigiam os trabalhos. Fiquei fascinado. Na aula seguinte o professor emprestou-me um livro, Introdução à Arqueologia, de Gordon Childe. Gostei do livro e depois comecei a ler outros na Biblioteca Municipal, sobre Arqueologia e também sobre assuntos relacionados com o Património, uma coisa tem a ver com a outra.
Deves-te lembrar que, no ano seguinte, como havia outra campanha de escavações, deixaste-me ir para o Zambujal, nas férias, e até ganhei umas massas.

Foram estas coisas todas que me influenciaram a querer ir para Arqueologia. Informei-me e vi que há Licenciaturas e, até, Mestrados, em várias Universidades. Pelo menos em 6, desde a Universidade do Minho, passando pela do Porto, Coimbra, Nova de Lisboa e Évora. Se abriram esses cursos, é porque há hipóteses de trabalho – pensei eu. Andei a pesquisar na net e encontrei muita coisa.
Tu ontem disseste que a arqueologia não servia para nada, só para perder tempo, e que não dava dinheiro. Desculpa lá, pai, mas estás enganado. Sabes o que disse uma professora da Universidade do Minho na sessão solene dos 39 anos daquela Universidade, no dia 20 de Fevereiro deste ano de 2013? Foi isto:

«Longe de ser uma disciplina académica periférica que muitos consideram pouco ou nada contribuir para a resolução dos graves problemas que nos afrontam, a arqueologia é hoje um domínio científico e uma actividade económica com relevância social, geradora de conhecimento útil e de serviços fundamentais na sociedade do conhecimento, muito embora careça de ser compreendida em toda a sua complexidade, enquanto serviço intensivo de conhecimento com relevância no sector das indústrias culturais e criativas, consideradas fundamentais pela União Europeia no âmbito do Programa do Quadro Estratégico para 2020»

Havias de ler o discurso todo, mostra o que é e para que serve a Arqueologia e como ela é necessária à Sociedade. (1)
Em certa altura ela fala no “tecido empresarial da arqueologia portuguesa” e eu tentei saber mais coisas sobre o assunto. Descobri que há uma Associação dos Arqueólogos  Portugueses que tem 150 anos de existência e que entregou ao Governo, em 11 de Março deste ano, um documento em que faz um resumo dos avanços da actividade arqueológica no século XX. Também indica algumas orientações para que essa actividade se desenvolva mais. Por exemplo, logo a primeira coisa é:
«Que o Estado deve cumprir os articulados da Convenção de Malta e a Lei de Bases do Património». (2)

Fiquei com curiosidade de saber o que eram aqueles documentos. Então é assim: A Convenção de Malta é um documento para a protecção do património arqueológico, aprovado em Janeiro de 1992 na cidade de La Valetta, pelos Estados membros do Conselho da Europa e dos restantes Estados Partes na Convenção Cultural Europeia, e que tem muitas indicações sobre o que os Estados devem fazer para que esse património seja “fonte da memória colectiva europeia e instrumento de estudo histórico e científico.” (Artigo 1º).
Tem 18 artigos, que explicam muito bem como a arqueologia tem uma importância cada vez maior para o estudo do passado da humanidade. Fez-me lembrar o livro que o dr. Monteiro me emprestou e que começava assim: «A arqueologia é uma forma de história e não uma simples disciplina auxiliar.» (3)
A Assembleia da República e o Presidente da República ratificaram esta Convenção em 1997. Mas se a Associação dos Arqueólogos fala dela se calhar é porque não é respeitada e o Governo tem de mudar a sua atitude e olhar mais pela Arqueologia. Há muitos tratados e convenções internacionais, todos relacionados com o Património e a Arqueologia, isto tudo eu vi num livro da Biblioteca. (4)

Até porque há a tal Lei de Bases, que eu fui investigar: é a Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro. E sabes que ela tem uma parte que é dedicada apenas ao património arqueológico? Começa no Artº 74 e vai até ao 79. Está lá a orientação toda, para o Estado, para as autarquias e para as pessoas vulgares. E também diz que «aos bens arqueológicos será aplicável o princípio da conservação pelo registo científico» (Artº 75). E mais adiante determina que os trabalhos arqueológicos serão dirigidos obrigatoriamente por arqueólogos, mediante autorização oficial. Quer dizer, pai, que não é um tipo qualquer que se vai pôr a escavar coisas antigas, só pessoas com habilitações para isso, os arqueólogos, que têm de ser profissionais.

Também vi que há uma Associação Profissional de Arqueólogos que procura juntar os profissionais para que defendam os seus interesses. Têm um site na net (http://www.aparqueologos.org/) que explica como é que eles se organizam.
Na minha pesquisa de dados descobri também que o Decreto-Lei nº 270/99 de 15 de Julho aprova o Regulamento dos Trabalhos Arqueológicos. Isso quer dizer que tem de haver empresas que se dediquem a esses trabalhos. E há várias, que eu encontrei na net, como podes ver:


Essas empresas precisam de arqueólogos, com certeza. Além disso, há várias autarquias, a nível concelhio, que têm gabinetes de arqueologia ou outros serviços relacionados. É o caso, por exemplo, do Seixal, Setúbal, Braga e Porto, entre outras. Eu acho que isto podem ser boas oportunidades de trabalho.

Tu ontem dizias que estamos em crise. Isso é geral e o que eu sei, pai, é que as perspectivas de trabalho não são boas em lado nenhum, por isso a arqueologia também pode estar em crise, como li em diversos sítios. Sobretudo porque há poucas obras públicas a fazer. Mas então, se há crise em todo o lado, eu acho que é melhor fazer formação numa área do meu gosto e esperar que as coisas melhorem. Ainda não há muitos anos os arqueólogos eram muito procurados pelas empresas da especialidade e isto tem de mudar e acredito que mude para melhor.

Não quero dar-te mais seca. Espero que penses nestas coisas que te disse e que tentes compreender a minha opinião. Tenho sido bom estudante, tens de ter isso em conta. E vou continuar a ser se me dedicar ao Curso de que eu gosto.

Um abraço do teu filho

J.


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NOTAS:

(1)    MARTINS, Maria Manuela, «Oração de Sapiência» na Sessão Solene do XXXIX aniversário da Universidade do Minho, 20 – II – 2013, em linha, [acedido em 15 – XI – 2013 http://umonline.uminho.pt/uploads/eventos/EV_6701/20130221524761242476.pdf
(3)    CHILDE, V. Gordon, Introdução à Arqueologia, tradução e prefácio de Jorge Borges de Macedo, Publicações Europa-América, Colecção Saber nº 48, Lisboa, 1961, 157 p.
(4)    LOPES, Flávio e Miguel Brito Correia, Património arquitectónico e arqueológico – cartas, recomendações e convenções internacionais, Livros Horizonte, Lisboa, 20045, 351 p.


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