segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O VANDALISMO CONTRA O PATRIMÓNIO E OS LIMITES DA PRESERVAÇÃO


VITOR HUGO CLAMA E DENUNCIA EM NOME DE QUÊ?



Antes de me debruçar sobre os nossos escritores oitocentistas, detenho-me ainda na figura de V. Hugo.

Há nele a postura do profeta que clama no deserto, atitude característica dos homens que estão em contradição com o seu tempo e que têm tendência para aumentar desmesuradamente os aspectos que consideram negativos na sociedade. O nosso Herculano também foi um pouco assim...
Volto a referir F. Choay que, a este propósito, avança a ideia de que em V. Hugo - como na corrente romântica de que ele foi figura exponencial - se manifesta a consciência de uma mudança histórica radical com a chegada da Revolução Industrial. Esta nova ordem económica acarreta uma "ruptura traumática do tempo" (cf  Françoise Choay, A alegoria do património, Ed. 70, Lisboa, 2013, p.144) e, perante esta passagem da "fronteira do irremediável" (idem) há que contrapor a defesa do que é perene: os monumentos que são uma herança que recebemos do passado e que devemos legar ao futuro. Há aqui a concepção da História como acumulação de legados, "produtos da inteligência humana", "obra colectiva dos nossos pais" ( cf. último parágrafo de "Guerre aux démolisseurs"),.
"É isto que deveis respeitar, ó homens do meu tempo!" - parece clamar V. Hugo do alto do seu inconformismo.




MAS... SERÁ POSSÍVEL PRESERVAR TUDO?


Michel Lacroix (O princípio de Noé ou a ética da salvaguarda, Instituto Piaget, Lisboa, 1999) fala no "regresso ao passado" como um fenómeno visível nas sociedades contemporâneas, uma reacção saudável "perante a mudança económica, social e urbana que ninguém controla" (p. 16). No fundo, algo de semelhante à reacção dos românticos do séc. XIX face às mudanças provocadas pela Revolução Industrial


No final do livro, interroga: "Que deveremos conservar?"(idem, p. 188)
Esta é a grande questão com que se defrontam todos os dias os autarcas e os cidadãos, organizados ou não em Associações de Defesa do Património. Lacroix, defensor de que "o património não pode esquecer que o desenvolvimento da pessoa é a sua verdadeira finalidade" (idem), deixa uma pergunta inquietante: "Como poderá o homem tomar consciência do que ele é se estiver soterrado debaixo de um passado integralmente conservado?" (ibidem, p. 191)
Ficamos ansiosos pela resposta. Recorrendo mais uma vez ao mito de Noé (o primeiro defensor do Património da Humanidade?...), Lacroix responde: "Deveremos então pôr na arca o que civiliza, o que torna mais humano, salvaguardando ao mesmo tempo a identidade e enraizando..." (as reticências são dele).

Parecendo uma resposta muito pequena para a enormidade da questão, ela deixa em aberto tudo o que nos compete fazer e que está contido nas reticências. É onde teremos de voltar muitas vezes.

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RESPONDENDO A UMA COLEGA:

Concordando com quase tudo o que escreveu, permita-me discordar da conclusão. Se é verdade que há muita falta de conhecimento, grande parte do que foi ( e por vezes continua a ser...) vandalismo  resulta de opções de gente que sabe muito bem o que faz. Então por que o faz?

Há muitas razões que consideram justificativas dos seus actos, de que destaco: vantagens económicas, legítimas no quadro das sociedades liberais; e razões ideológicas, que defendem o primado do presente sobre o passado em nome do progresso, do desenvolvimento, de necessidades sociais, etc.
Nesta perspectva, não basta deplorar o vandalismo, ou criticá-lo com argumentos moralistas: ao denunciá-lo, é preciso desmontar as razões.
É uma opinião, teremos de continuar a debater isto...

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